Este é o segundo post da série “A Crise do Mundo Moderno”, título de um livro de René Guénon escrito em 1927. Vale a pena comentar que a situação piorou muito de lá pra cá, haja vista a invasão ocidental ao oriente, que tomou proporções estratosféricas.
Prosseguiremos então com novos trechos:
“[...]Visto que acabei por falar do “experimentalismo”, devo aproveitar a ocasião para responder a uma pergunta que se pode colocar a este respeito: por que é que as ciências propriamente experimentais receberam, na civilização moderna, um desenvolvimento que nunca tiveram noutras civilizações? É que estas ciências são as do mundo sensível, as da matéria, e também são as que dão lugar a aplicações práticas mais imediatas. O seu desenvolvimento, acompanhado do que eu chamaria de boa vontade a “superstição do fato”, corresponde, então, às tendências especificamente modernas, enquanto, pelo contrário, as épocas precedentes não tinham encontrado aí suficientes motivos de interesse para se prenderem a elas a ponto de desprezar os conhecimentos de ordem superior.
É necessário compreender que não se trata de declarar ilegítimo em si mesmo um conhecimento qualquer, mesmo que seja inferior; o que é ilegítimo é apenas o abuso que se produz quando coisas deste gênero absorvem toda a atividade humana, tal como vemos atualmente. Poderíamos mesmo conceber que, numa civilização normal, ciências constituídas por um método experimental estivessem ligadas aos princípios, tal como outras, e providas, assim, de um real valor especulativo. De fato, se este valor não parece ter-se apresentado é que a atenção foi dada de preferência a outro aspecto, e também porque, quando se tratava de estudar o mundo sensível na medida em que parecia interessante fazê-lo, os dados tradicionais permitiam efetuar mais favoravelmente esse estudo por outros métodos e de um outro ponto de vista.[...]“
“[...]Trata-se também, para esses mesmos filósofos, de ligar o seu nome a um “sistema”, quer dizer, a um conjunto de teorias estritamente reduzido e limitado que seja bem deles, que não seja outra coisa senão a sua própria obra. Daí o desejo de ser original a todo preço, mesmo que a verdade deva ser sacrificada a essa originalidade: mais vale, para o prestígio de um filósofo, inventar um erro novo do que repetir uma verdade que foi já exprimida por outros. Essa forma do individualismo, à qual se devem tantos “sistemas” contraditórios uns aos outros, quando não o são em si mesmos, encontra-se tanto entre os sábios como entre os artistas modernos, mas é talvez entre os filósofos que se pode ver mais nitidamente a anarquia intelectual que é a sua inevitável conseqüência. Numa civilização tradicional é quase inconcebível que um homem pretenda reivindicar a propriedade de uma idéia, e, em todo o caso, se o faz, por esse mesmo fato retira-lhe todo o crédito e toda a autoridade, porque a reduz assim a ser apenas uma espécie de fantasia sem qualquer alcance real: se uma idéia é verdadeira, ela pertence igualmente a todos aqueles que são capazes de compreendê-la; se ela é falsa, não há motivo para se vangloriar de tê-la inventado. Uma idéia verdadeira não será “nova”, porque a verdade não é um produto do espírito humano, existe independentemente de nós e temos somente que a conhecer. Fora desse conhecimento só pode haver o erro; mas, no fundo, estarão os modernos preocupados com a verdade e saberão mesmo ainda o que ela é? Também aí as palavras perderam o seu sentido, visto que alguns, como os “pragmatistas” contemporâneos, chegam a ponto de atribuir abusivamente este nome “verdade” ao que é muito simplesmente a utilidade prática, ou seja, a algo que é inteiramente estranho à ordem intelectual.[...]“
“[...]Mas não é tudo: o individualismo arrasta inevitavelmente consigo o “naturalismo”, visto que tudo o que está para além da Natureza está, por isso mesmo, fora do alcance do indivíduo enquanto tal. “Naturalismo” e negação da Metafísica são uma e a mesma coisa, e como que a intuição intelectual é desconhecida, não há mais Metafísica possível. Enquanto alguns se obstinam, no entanto, em construir uma “pseudo-Metafísica” qualquer, outros reconhecem mais francamente essa impossibilidade; daí o “relativismo” sob todas as suas formas, seja o “criticismo” de Kant ou o “positivismo” de Auguste Comte.[...]“
“[...]Tal é, com efeito, a posição tomada por essa forma do “evolucionismo” que é o “intuicionismo” bergsoniano, o qual, bem entendido, é tão individualista e antimetafísico quanto o “racionalismo” e, embora critique justamente este, cai ainda mais baixo ao fazer apelo a uma faculdade propriamente infra-racional, a uma intuição sensível bastante mal definida e mais ou menos misturada com imaginação, instinto e sentimento.[...]“
“[...]para o ponto de vista que eu adoto, o começo dessa ruptura data do século 16 e de fato é aí, e não um ou dois séculos mais tarde, que se deve fazer começar os tempos modernos.
É sobre essa ruptura com a Tradição que insistirei ainda, visto que foi dela que nasceu o Mundo Moderno, cujas características próprias todas poderiam ser resumidas numa só: a oposição ao espírito tradicional, que é o individualismo. Isto, de resto, está em perfeito acordo com o que foi dito até aqui, visto que são a intuição intelectual e a doutrina metafísica pura que estão no princípio de toda a civilização tradicional; negando-se o princípio negam-se também todas as conseqüências, pelo menos implicitamente e, assim, todo o conjunto que verdadeiramente merece o nome de Tradição encontra-se destruído por isso mesmo.[..]“
“[...]Significaria isto que, pelo menos aí[no Catolicismo], podemos falar de uma conservação integral da Tradição, ao abrigo de qualquer ataque do espírito moderno? Infelizmente não parece que seja assim; ou, para falar com mais exatidão, se o depósito da Tradição permaneceu intacto, o que já é muito, é bastante duvidoso que o seu sentido profundo seja ainda compreendido efetivamente, mesmo por uma elite pouco numerosa, cuja existência se manifestaria sem dúvida por uma ação, ou melhor, por uma influência que de fato não verificamos em parte nenhuma. Trata-se, então, certamente, do que chamaríamos de bom grado de conservação no estado latente, permitindo sempre, àqueles que forem capazes disso, encontrar o sentido da Tradição, mesmo que esse sentido não fosse atualmente consciente para ninguém.
Há também, aliás, dispersos aqui e ali no Mundo ocidental, fora do domínio religioso, muitos sinais ou símbolos que provêm de antigas doutrinas tradicionais e que são conservados sem serem compreendidos. Nesses casos, um contato com o espírito tradicional plenamente vivo é necessário para despertar o que está assim mergulhado numa espécie de sono, para restaurar a compreensão perdida. E, repito, é sobretudo nesse aspecto que o Ocidente terá necessidade do auxílio do Oriente se quiser voltar à consciência da sua própria Tradição.[...]“
“[...]Mas, falando do estado presente do catolicismo, quem quisesse entender a maneira como ele é encarado pela grande maioria dos seus próprios aderentes seria obrigado a verificar uma ação mais positiva do espírito moderno, se essa expressão pode ser utilizada para algo que, na realidade, é essencialmente negativo.[..]“
“[...]Alguém pode julgar-se sinceramente religioso e, no fundo, não o ser de modo nenhum, pode mesmo afirmar-se “tradicionalista” sem possuir a menor noção do verdadeiro espírito tradicional; esse é um dos sintomas da desordem mental da nossa época. O estado de espírito ao qual faço alusão é, primeiramente, aquele que consiste, se assim se pode dizer, em “minimizar” a religião, em fazer dela uma coisa que se põe à parte, à qual se indica um lugar bem delimitado e tão estreito quanto possível, algo que não tem nenhuma influência real sobre o resto da existência e que está isolada dela por uma espécie de divisão estanque. Haverá hoje muitos católicos que tenham na vida corrente maneiras de pensar e de agir sensivelmente diferentes das dos seus contemporâneos mais “arreligiosos”?[...]“
“[...]É também a ignorância quase completa do ponto de vista doutrinal, e mesmo a indiferença a respeito de tudo o que se lhe refere. A religião, para muitos, é simplesmente uma questão de “prática”, de hábito, para não dizer de rotina, e abstêm-se cuidadosamente de procurar compreender o que quer que seja, chegam mesmo a pensar que é inútil compreender ou talvez que não há nada para compreender. De resto, se compreendessem verdadeiramente a religião, poderiam atribuir-lhe um lugar tão medíocre entre as suas preocupações? A doutrina encontra-se, então, de fato esquecida ou reduzida a quase nada, o que se aproxima singularmente da concepção protestante, porque é um efeito das mesmas tendências modernas, opostas a toda intelectualidade; e o mais deplorável é que o ensino que é dado geralmente, em lugar de reagir contra esse estado de espírito, pelo contrário favorece-o, adaptando-se bem demais a ele.[...]“
“[...]Fala-se sempre de moral, não se fala quase nunca de doutrina, sob pretexto de que esta não seria compreendida; a religião agora não é mais do que “moralismo”[e "sentimentalismo"] ou, pelo menos, parece que ninguém quer mais ver o que ela é realmente, e que se trata de coisa diferente. Se ainda se chega, no entanto, a falar algumas vezes de doutrina, é em geral para rebaixá-la, discutindo com adversários no seu próprio terreno “profano”, o que conduz inevitavelmente a fazer-lhes as concessões mais injustificadas.[...]“
“[...]No domínio das opiniões individuais pode-se sempre discutir, porque não se ultrapassa a ordem racional e porque, não fazendo apelo a qualquer princípio superior, é fácil encontrar argumentos mais ou menos válidos para sustentar os “prós” e os “contras”. Pode-se mesmo, em muitos casos, prosseguir a discussão indefinidamente, sem chegar a nenhuma solução, e é assim que quase toda a Filosofia moderna é feita de equívocos e de questões mal postas. Bem longe de esclarecer as questões, como se supõe vulgarmente, a discussão quase sempre meramente as desloca, senão mesmo as obscurece ainda mais; e o resultado mais habitual é que cada um, esforçando-se por convencer o seu adversário, agarra-se cada vez mais à sua própria opinião e encerra-se nela de modo ainda mais exclusivo do que antes.
Em tudo isso, no fundo, não se trata de chegar ao conhecimento da verdade, mas de ter razão apesar de tudo ou, pelo menos, a persuadir-se a si próprio, se não for possível persuadir os outros. Essa impossibilidade, aliás, será ainda mais lamentada porque se mistura sempre nisso a necessidade de “proselitismo” que é também um dos elementos mais característicos do espírito ocidental.[...]“
“[...]Mas volto ainda um instante à introdução dos hábitos de discussão em domínios nos quais esta não deveria entrar, para dizer claramente isto: a atitude “apologética” é, em si mesma, uma atitude extremamente fraca, porque é puramente “defensiva”, no sentido jurídico desta palavra.[...]“
“[...]Aqueles que são qualificados para falar em nome de uma doutrina tradicional não têm que discutir com os “profanos” nem que entrar em “polêmica”; só têm que expor a doutrina tal como ela é, para aqueles que a podem compreender, e, ao mesmo tempo, denunciar o erro por toda a parte onde ele se encontre, fazendo-o aparecer como tal e projetando sobre ele a luz do verdadeiro conhecimento. O seu papel não é o de encetar um combate e comprometer nele a doutrina, mas sim de fazer o juízo que têm o direito de emitir se possuem mesmo os princípios que devem inspirá-los infalivelmente. O domínio da luta é o da ação, ou seja, o domínio individual e temporal; o “motor imóvel” produz e dirige o movimento sem ser arrastado por ele. O conhecimento ilumina a ação sem participar nas suas vicissitudes, o espiritual guia o temporal sem se misturar nele, e, assim, cada coisa permanece na sua ordem, no lugar que lhe compete na hierarquia universal. Mas, no Mundo Moderno, onde se pode encontrar ainda a noção de uma verdadeira hierarquia? Já nada nem ninguém se encontra no lugar onde devia normalmente estar; os homens já não reconhecem nenhuma autoridade efetiva na ordem espiritual, nenhum poder legítimo na ordem temporal. Os “profanos” permitem-se discutir as coisas sagradas, contestar-lhe esse caráter e até a própria existência; é o inferior que julga o superior, a ignorância que impõe limites à sabedoria, o erro que ultrapassa a verdade, o humano que toma o lugar do divino, a Terra que toma a dianteira ao Céu, o indivíduo que se faz medida de todas as coisas e pretende ditar ao Universo leis tiradas inteiramente da sua própria razão relativa e falível. “Ai de vós, guias cegos”, diz-se no Evangelho; hoje, efetivamente, só se vêem por toda a parte cegos que conduzem outros cegos e que, se não forem detidos a tempo, os conduzirão fatalmente ao abismo, onde cairão com eles.[...]“
“[...]desprezou-se a natureza dos indivíduos antes de se chegar a ponto de não fazer qualquer caso dela. Mais tarde, no entanto, ela foi erigida pelos modernos em pseudo-princípio sob nome de “igualdade”. Seria muito fácil mostrar que a igualdade não pode existir em lugar nenhum, pela simples razão de que não poderia haver dois seres que fossem ao mesmo tempo realmente distintos e inteiramente semelhantes entre si sob todos os aspectos. Seria fácil também salientar todas as conseqüências absurdas que decorrem dessa idéia quimérica, em nome da qual se pretende impor por toda parte uma completa uniformidade, por exemplo distribuindo a todos ensino idêntico, como se todos fossem igualmente aptos a compreender as mesmas coisas e como se para as fazer compreender os mesmos métodos conviessem a todos indistintamente. Pode-se, aliás, perguntar se não se trata mais de “aprender” do que de “compreender” realmente, ou seja, se a memória não é substituta da inteligência na concepção inteiramente verbal e “livresca” do ensino atual, em que se visa apenas a acumulação de noções rudimentares e heteróclitas, e em que a qualidade é inteiramente sacrificada à quantidade, tal como se produz por toda a parte, no Mundo Moderno, por razões que explicarei mais completamente a seguir: é sempre a dispersão na multiplicidade.[...]“
“[...]Se a competência dos “especialistas” é muitas vezes ilusória e, em todo o caso, limitada a um domínio muito estreito, a crença nessa competência é, todavia, um fato e podemos perguntar como é possível que essa crença não desempenhe qualquer papel quando se trata da carreira dos homens políticos, em que a incompetência mais completa raramente é obstáculo. No entanto, se refletimos nesse fato percebemos facilmente que não há nisso nada de que nos devamos espantar, pois trata-se, em suma, apenas do resultado muito natural da concepção “democrática”, em virtude da qual o poder vem de baixo e apóia-se essencialmente sobre a maioria, o que tem necessariamente por corolário a exclusão de toda verdadeira competência, porque a competência é sempre uma superioridade pelo menos relativa e só pode ser o apanágio de uma minoria.[...]“
“[...]Se se define a “democracia” como o governo do povo por si mesmo, trata-se de uma verdadeira impossibilidade, uma coisa que nem mesmo pode ter simples existência de fato, e não mais na nossa época do que em qualquer outra. Não devemos nos deixar enganar pelas palavras, e é contraditório admitir que os mesmos homens possam ser simultaneamente governantes e governados, visto que, para utilizar a linguagem aristotélica, um mesmo ser não pode ser “em ato” e “em potência” ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Há uma relação que supõe necessariamente dois termos em presença; não poderia haver governados se não houvesse também governantes, ainda que ilegítimos e sem outro direito ao poder que aquele que atribuíram a si mesmos; mas a grande habilidade dos dirigentes, no Mundo Moderno, é a de fazer crer ao povo que ele se governa a si próprio. E o povo deixa-se persuadir de boa vontade, tanto mais porque se sente lisonjeado com isso e é incapaz de refletir bastante para ver o que há aí de impossível.
“[...]é a opinião da maioria que supostamente faz a lei, mas falta perceber que a opinião é algo que se pode facilmente dirigir e modificar. Pode-se sempre, com o auxílio de sugestões apropriadas, provocar nela correntes dirigidas neste ou naquele sentido determinado; já não me lembro quem falou em “fabricar a opinião” e esta expressão é completamente justa, embora se deva dizer que não são sempre os dirigentes visíveis que têm realmente à sua disposição os meios necessários para obter esse resultado. Esta última observação dá-nos certamente a razão pela qual a incompetência dos políticos mais destacados parece ter apenas uma importância muito relativa; mas como não se trata aqui de desmontar as engrenagens do que se poderia chamar de “máquina governativa”, limito-me a assinalar que essa mesma incompetência oferece a vantagem de manter a ilusão que acabo de mencionar: é somente nessas condições, efetivamente, que os políticos em questão podem aparecer como a emanação da maioria, sendo assim feitos à sua imagem, porque a maioria, seja qual for o assunto acerca do qual for chamada a dar a sua opinião, é sempre constituída pelos incompetentes, cujo número é incomparavelmente maior do que o dos homens que são capazes de se pronunciar com perfeito conhecimento de causa.[...]“
“[...] Pode-se fazer intervir, a este respeito, certas observações de “psicologia coletiva” e lembrar notadamente o fato bastante conhecido de que, numa multidão, o conjunto das reações mentais que se produzem entre os indivíduos que a compõem leva à formação de uma espécie de resultante que não está nem sequer no nível da média, mas no nível dos elementos mais inferiores.[...]“
“[...]Haveria aqui lugar para fazer notar, por outro lado, como certos filósofos modernos quiseram transportar para a ordem intelectual a teoria “democrática” que faz prevalecer a opinião da maioria, fazendo do que chamam de “consenso universal” um pretenso “critério da verdade”. Mesmo supondo que haja efetivamente uma questão acerca da qual todos os homens estejam de acordo, esse acordo não provaria nada em si mesmo; mas, além disso, se essa unanimidade existisse realmente, o que é tanto mais duvidoso quanto há sempre muitos homens que não têm nenhuma opinião sobre qualquer questão e que nunca a definiram, seria em todo caso impossível verificá-la de fato, pelo que, o que se invoca a favor de uma opinião e como sinal da sua verdade reduz-se a ser apenas o consentimento do maior número, e ainda restringindo-se a um meio forçosamente muito limitado no espaço e no tempo. Neste domínio aparece ainda mais claramente que a teoria carece de bases, porque é mais fácil subtrair-se à influência do sentimento que, pelo contrário, entra em jogo quase inevitavelmente quanto se trata do domínio político, e essa influência é um dos principais obstáculos à compreensão de certas coisas, mesmo entre aqueles que teriam capacidade intelectual largamente suficiente para alcançar sem dificuldade essa compreensão. Os impulsos emotivos impedem a reflexão, e uma das mais vulgares habilidades da política é a que consiste em tirar partido dessa incompatibilidade.[...]“
“[...]A multiplicidade vista fora do seu princípio, e que desse modo não pode mais ser remetida à unidade, é, na ordem social, a coletividade concebida como sendo simplesmente a soma aritmética dos indivíduos que a compõem, e que com efeito é apenas isso mesmo, quando não se encontra ligada a qualquer princípio superior aos indivíduos. E a lei da coletividade, sob este aspecto, é bem essa lei do maior número sobre a qual se funda a idéia “democrática”.[...]“
“[...]Dito isto, devo ainda insistir numa conseqüência imediata da idéia “democrática“, que é a negação da elite entendida na sua única acepção legítima; não é propriamente “por acaso” que “democracia” se opõe a “aristocracia”, esta última palavra designando precisamente, pelo menos quando é tomada no seu sentido etimológico, o poder da elite. A elite, de qualquer modo, por definição só pode ser um pequeno número, e o seu poder, ou antes, a sua autoridade, que vem apenas da sua superioridade intelectual, nada tem em comum com a força numérica sobre a qual repousa a “democracia”, cujo caráter essencial é o de sacrificar a minoria à maioria, e também por isso mesmo, como dizíamos mais acima, a qualidade à quantidade, e, portanto, a elite à massa. Assim, o papel diretor de uma verdadeira elite e a sua própria existência, porque ela desempenha forçosamente esse papel desde que exista, são radicalmente incompatíveis com a “democracia”, que está inteiramente ligada à concepção “igualitária”, quer dizer, à negação de toda a hierarquia. O próprio fundo da idéia “democrática” é o de que qualquer indivíduo vale tanto como outro porque são iguais numericamente, e embora só o possam ser numericamente.[...]“
“[...]Uma autêntica elite, como já disse, só pode ser intelectual; é por isso que a “democracia” apenas se pode instaurar onde a pura intelectualidade já não existe, o que é efetivamente o caso do Mundo Moderno. Somente, como a igualdade é impossível de fato, e como não se podem suprimir praticamente todas as diferenças entre os homens, apesar de todos os esforços de nivelamento, chega-se, por um curioso ilogismo, a ponto de inventar falsas elites, aliás, múltiplas, que pretendem substituir a única elite real. Essas falsas elites são baseadas na consideração de quaisquer superioridades, eminentemente relativas e contingentes, e sempre de ordem puramente material. Podemo-nos aperceber facilmente disso notando que a distinção social que mais conta no atual estado de coisas é a que se baseia na fortuna, isto é, sobre uma superioridade toda ela exterior e de ordem exclusivamente quantitativa – a única, em suma, que é conciliável com a “democracia”, porque procede do mesmo ponto de vista.[...]“
“[...]Parece-me que estas curtas reflexões são suficientes para caracterizar o estado social do mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, para mostrar que nesse domínio, como em todos os outros, só há um único meio de sair do caos: a restauração da intelectualidade e, por conseqüência, a reconstituição de uma elite que atualmente deve ser encarada como inexistente no Ocidente, porque não se pode dar esse nome a alguns elementos isolados e sem coesão que representam apenas, de certo modo, possibilidades não desenvolvidas. Com efeito, esses elementos, em geral, têm apenas tendências ou aspirações, que os levam sem dúvida a reagir contra o espírito moderno, mas sem que a sua influência se possa exercer de maneira efetiva. O que lhes falta é o verdadeiro conhecimento, são os dados tradicionais que não se improvisam, e que uma inteligência entregue a si própria, sobretudo em circunstâncias tão desfavoráveis em todos os aspectos, não pode substituir senão muito imperfeitamente e em fraca medida. Não há, então, senão esforços dispersos e que muitas vezes se perdem por falta de princípios e de direção doutrinal; poder-se-ia dizer que o Mundo Moderno se defende pela sua própria dispersão, à qual os seus próprios adversários não conseguem subtrair-se. Será assim enquanto estes se mantiverem no terreno“profano”, em que o espírito moderno tem vantagem evidente, visto que é esse o seu campo próprio e exclusivo. Aliás, se eles se mantêm aí é porque esse espírito tem ainda sobre eles, apesar de tudo, forte domínio. É por isso que tantas pessoas, embora animadas de incontestável boa vontade, são incapazes de compreender que se deve necessariamente começar pelos princípios, e obstinam- se em gastar as suas forças neste ou naquele domínio relativo, social ou de outro tipo, embora nada de real ou de duradouro possa ser feito nessas condições. A verdadeira elite, pelo contrário, não teria que intervir diretamente nesses domínios nem que se misturar com a ação exterior; ela dirigiria tudo por uma influência inapreensível para o homem comum e tanto mais profunda quanto menos visível fosse. Se pensarmos no poder das sugestões de que falei há pouco, e que, no entanto, não supõem qualquer verdadeira intelectualidade, podemos suspeitar o que seria, com muito mais razão, o poder de uma influência como essa, exercendo-se de maneira ainda mais escondida em virtude da sua própria natureza, e buscando a sua origem na intelectualidade pura. Um poder que, aliás, em lugar de ser diminuído pela divisão inerente à multiplicidade e pela fraqueza que comporta tudo o que é mentira ou ilusão, seria, pelo contrário, intensificado pela concentração na unidade principal e identificar-se-ia com a própria força na verdade.[...]“