Terceiro e último “post” de trechos do Livro “A Crise do Mundo Moderno”, 1927, René Guénon.
Antes de prosseguirmos aos trechos, deixarei um link de um artigo sobre Guénon que saiu numa revista:
-http://dennymarquesani.sites.uol.com.br/semana/reneguenon.htm
Observação Importante sobre o link acima:
Ignore a referência a Gurdjieff e sua comparação com Guénon na página acima. Quem colocou a foto dele comparando-o com Guénon provavelmente não leu ou não entendeu Guénon. Gurdjieff é um típico representante da mentalidade neoespiritualista a que Guénon se opôs diametralmente. Guénon não era “ocultista”, ele desprezava o que chamamos de “ocultismo“, que para ele não passa de uma caricatura de espiritualidade, de uma salada ecumênica e que distorce e falsifica totalmente as verdades das religiões tradicionais. Assim, Gurdjieff e Guénon se encontram em pólos opostos.
Gurdjieff é um representante da neoespiritualidade, um dos principais, que abriu caminho para a deflagração de todo tipo de seita moderna “new age“(nova era), muitas das quais se apropriam de elementos externos de religiões orientais para incorporá-los em suas pseudo-doutrinas e dar, assim, uma impressão de oriental, quando na verdade são parte do fenômeno maior do materialismo ocidental moderno – por isso, alguns chamam essa neoespiritualidade de “materialismo espiritual“, fenômeno que engloba desde as primeiras seitas ocultistas até coisas totalmente atuais e grotescas em último grau, como o livro “O Segredo“, por exemplo, que na minha opinião não pode nem ser mais chamado de neoespiritualista(de materialismo espiritual), mas simplesmente de materialista. Isso porque o neoespiritualismo tenta ao menos enganar que é espiritual, incorporando alguma idéia falseada e grosseira de “além”, enquanto que fenômenos mais atuais como “O Segredo” prescindem até mesmo de idéias desse tipo, sendo completamente e explicitamente materialistas, integralmente focados no mundano e no profano. Em suma, meros meios de tapear pessoas ingênuas com o objetivo de ganhar dinheiro. E nem de longe são materialistas no sentido em que o eram alguns antigos, gregos, na época das invasões de Alexandre[epicuristas, estóicos, etc.]; são materialistas de uma forma muito mais grosseira e estúpida. Hoje em dia, quando se fala em hedonismo, por exemplo, as pessoas pensam logo em orgias e todo tipo de depravações. Na Grécia, o hedonismo não tinha nada que ver com isso. E, se levarmos em conta que esses movimentos gregos já eram sinais acentuados de decadência intelectual, o que dizer dos movimentos de hoje em dia? E que tais movimentos neoespiritualistas dos mais estapafúrdios e bizarros(totalmente “nonsense”) ganhem tanto terreno só revela em que situação degradante estamos. E isso depois de milênios de debates e meditações profundas no oriente e de séculos de discussões teológicas no ocidente. Tudo isso é ignorado pelas novas gerações, que só buscam o que é fácil e está na moda.
Já René Guénon é um representante da tradição. Suas fonte é a própria ortodoxia, o pensamento mais antigo e mais tradicional. Ele trata de metafísica pura, daquilo que é supra-religioso. Apesar de este livro específico(A Crise do Mundo Moderno) não tratar destes temas.
Vamos agora aos trechos de crítica ao mundo moderno:
“[...]Para os modernos, nada aparece existir fora do que se pode ver e tocar, ou pelo menos, mesmo se admitem teoricamente que pode existir qualquer outra coisa, apressam-se a declará-la não apenas desconhecida mas também incognoscível, o que os dispensa de se ocuparem dela. Todavia, se há quem tente fazer alguma coisa de um “outro mundo”, como para isso não faz apelo senão à imaginação, representa-o segundo o modelo do mundo terrestre e transporta para aí todas as condições de existência que são próprias deste, incluindo o espaço e o tempo, até mesmo uma espécie de “corporeidade”. Mostrei em outro livro, entre as concepções espíritas, exemplos particularmente chocantes desse gênero de representações grosseiramente materializadas; mas se esse é um caso extremo, em que tal caráter é exagerado até à caricatura, seria um erro acreditar que o Espiritismo e as seitas que lhe são mais ou menos aparentadas têm o monopólio desse gênero de coisas. De resto, de um modo mais geral, a intervenção da imaginação nos domínios em que ela nada pode dar, e que deveriam normalmente ser-lhe interditos, é um fato que mostra muito nitidamente a incapacidade dos ocidentais modernos de se elevarem acima do sensível. Muitos não sabem estabelecer qualquer diferença entre “conceber” e “imaginar“, e certos filósofos, como Kant, chegam ao ponto de declarar “inconcebível” ou “impensável” tudo o que não é susceptível de representação. Também tudo o que se chama “espiritualismo” ou “idealismo” é, na maior parte das vezes, uma espécie de materialismo transposto. Isso não é verdadeiro somente para o que designamos pelo nome de “neo-espiritualismo”, mas também para o próprio espiritualismo filosófico, que se considera, no entanto, como o oposto do materialismo. Para dizer a verdade, espiritualismo e materialismo, entendidos no sentido filosófico, só se podem compreender um pelo outro: são simplesmente as duas metades do dualismo cartesiano, cuja separação radical foi transformada numa espécie de antagonismo, e desde então toda a Filosofia oscila entre estes dois termos sem poder ultrapassá-los. O espiritualismo, apesar do seu nome, nada tem em comum com a espiritualidade; o seu debate com o materialismo só pode deixar perfeitamente indiferentes aqueles que se situam num ponto de vista superior, e que vêem que esses contrários, no fundo, estão bem perto de ser simples equivalentes. Sua pretensa oposição sobre muitos pontos se reduz a uma vulgar disputa de palavras.[...]“
“[...]A propósito de “realidade” mencionarei outro fato, que se arrisca a passar despercebido para muitos, mas que é muito digno de nota como sinal do estado de espírito que estamos examinando: é que esse nome, na sua utilização corrente, é exclusivamente reservado à realidade sensível. Como a linguagem é a expressão da mentalidade de um povo e de uma época, é necessário concluir daí que, para aqueles que falam assim, tudo o que não cai no domínio dos sentidos é “irreal”, quer dizer, ilusório ou mesmo inexistente. Pode ser que não tenham clara consciência disso, mas essa convicção negativa existe no fundo de si mesmos e, se afirmam o contrário, podemos estar bem seguros que, embora não se dêem conta, essa afirmação corresponde neles a um nível muito mais exterior, talvez mesmo puramente verbal. No caso de se julgar que eu exagero, bastará ver, por exemplo, ao que se reduzem as pretensas convicções religiosas de muitas pessoas: algumas noções aprendidas de cor, de modo escolar e maquinal, que eles nunca assimilaram de modo algum e nas quais nem sequer refletiram um mínimo, mas que conservam na sua memória e que repetem ocasionalmente porque fazem parte de um certo formalismo, de uma atitude convencional que é tudo o que podem entender pelo nome de religião. Já tratei dessa “minimização” da religião, de que o “verbalismo” em questão representa um dos últimos graus; é ela que explica que os chamados “crentes”, em matéria de materialismo prático, não fiquem em nada atrás dos “descrentes”. Voltaremos ainda a esse ponto, mas, antes disso, terminemos as considerações que dizem respeito ao caráter materialista da ciência moderna, porque essa é uma questão que pede para ser encarada sob diferentes aspectos.[...]“
“[...]É para o “bom senso“, sobretudo, que só o mundo sensível é “real” e que não há conhecimento que não venha dos sentidos. E para ele esse conhecimento restrito só vale na medida em que permite dar satisfação a necessidades materiais, e, por vezes, a um certo sentimentalismo, porque (devo dizer claramente, com risco de chocar o “moralismo” contemporâneo) o sentimento está, na realidade, muito perto da matéria. Em tudo isso, não resta nenhum lugar para a inteligência[...]“
“[...]Se alguém se quiser convencer ainda mais desta verdade, basta ver o papel imenso que hoje desempenham, tanto na existência dos povos como na dos indivíduos, os elementos de ordem econômica: indústria, comércio, finanças. Parece que só isso conta, o que está de acordo com o fato, já assinalado, de que a única distinção social que subsistiu é a que se baseia na riqueza material. Parece que o poder financeiro domina toda a política, que a concorrência comercial exerce uma influência preponderante nas relações entre os povos. Talvez isso não passe de uma aparência e essas coisas não sejam as verdadeiras causas, mas simples meios de ação; mas a escolha de tais meios indica bem o caráter da época à qual eles convêm. Aliás, os nossos contemporâneos estão persuadidos de que as circunstâncias econômicas são quase os únicos fatores dos acontecimentos históricos, e imaginam mesmo que foi sempre assim. Neste sentido, chegou-se a ponto de inventar uma teoria que pretende tudo explicar exclusivamente desse modo e que recebeu a denominação significativa de “materialismo histórico“.[...]“
“[...]Pode-se ver ainda aí o efeito de uma dessas sugestões às quais fiz alusão mais atrás, que atuam tanto melhor quanto mais correspondem às tendências da mentalidade geral; e o efeito dessa sugestão é o de que os meios econômicos acabam por determinar realmente quase tudo o que se produz no domínio social. Sem dúvida as massas sempre foram conduzidas de um modo ou de outro, e poder-se-ia dizer que o seu papel histórico consiste sobretudo em se deixarem conduzir, porque representam apenas um elemento passivo, uma “matéria” no sentido aristotélico. Mas hoje, para as conduzir, basta dispor de meios puramente materiais, desta vez no sentido vulgar da palavra, o que mostra bem o grau de abaixamento da nossa época; e, ao mesmo tempo, faz-se crer a essas massas que elas não são conduzidas, que agem espontaneamente e se governam a si próprias, e o fato de que elas acreditam nisso permite entrever até onde pode ir a sua falta de inteligência.[...]“
“[...]De resto, fora da questão das relações do Oriente e do Ocidente, é fácil verificar que uma das mais notáveis conseqüências do desenvolvimento industrial é o aperfeiçoamento incessante dos engenhos de guerra e o aumento do seu poder destrutivo em proporções formidáveis. Apenas isto deveria bastar para aniquilar os delírios “pacifistas” de certos admiradores do “progresso” moderno, mas os sonhadores e os “idealistas” são incorrigíveis e a sua ingenuidade parece não ter limites. O “humanitarismo” que está tanto em moda não merece seguramente ser levado a sério; mas é estranho que se fale tanto do final das guerras numa época em que elas fazem mais estragos do que nunca fizeram, não somente devido à multiplicação dos meios de destruição, mas também porque, em lugar de se desenrolarem entre exércitos pouco numerosos e compostos unicamente de soldados de profissão, lançam todos os indivíduos uns contra os outros, indistintamente, incluindo os menos qualificados para desempenhar semelhante função.[...]“
“[...]Admitindo que o desenvolvimento material tenha algumas vantagens, ainda que de um ponto de vista muito relativo, podemos nos perguntar, quando encaramos conseqüências como as que acabam de ser assinaladas, se essas vantagens não são muito ultrapassadas pelos inconvenientes. Nem sequer olhamos tudo o que foi sacrificado a esse desenvolvimento exclusivo, e que valia incomparavelmente mais; não mencionei os conhecimentos superiores esquecidos, a intelectualidade destruída, a espiritualidade desaparecida; acredito que se tomarmos simplesmente a civilização moderna em si mesma, e pusermos em paralelo as vantagens e os inconvenientes do que ela produziu, o resultado arrisca-se muito a ser negativo. As invenções que se vão multiplicando atualmente com uma rapidez sempre crescente são tanto mais perigosas quanto põem em jogo forças cuja verdadeira natureza é inteiramente desconhecida daqueles mesmos que as utilizam[...]“
“[...]Primeiro, há que se ter em conta o fato de que nem todos os homens têm os mesmos gostos nem as mesmas necessidades; que ainda há alguns, apesar de tudo, que desejariam escapar à agitação moderna, à loucura da velocidade e não o podem fazer; haverá quem ouse sustentar que, para esses, seja um “benefício” impor-lhes o que é mais contrário à sua natureza? Dir-se-á que esses homens são atualmente pouco numerosos, e por esse fato seria permitido tê-los como quantidade desprezível; aí, como no campo político, a maioria arroga-se o direito de esmagar as minorias, que, aos seus olhos, cometem evidentemente o erro de existir, visto que essa existência vai contra a mania “igualitária” da uniformidade. Mas se considerarmos o conjunto da Humanidade, em vez de nos limitarmos ao mundo ocidental, a questão muda de aspecto: a maioria de há pouco não irá se tornar uma minoria? Assim, não é o mesmo argumento que se faz valer neste caso e, por uma estranha contradição, é em nome da sua “superioridade” que estes “igualitários” querem impor a sua civilização ao resto do Mundo e que vão levar a perturbação a povos que nada lhes pediram. E como essa “superioridade” só existe do ponto de vista material, é natural que ela se imponha pelos meios mais brutais.[...]“
“[...]Mas que singular época esta em que tantos homens se deixam convencer que se faz a felicidade de um povo submetendo- o, retirando-lhe o que ele tem de mais precioso, ou seja, a sua própria civilização, obrigando-o a adotar costumes e instituições que são feitas para outra raça, e constrangendo-o aos trabalhos mais penosos para adquirir coisas que lhe são perfeitamente inúteis! Porque é assim: o Ocidente moderno não pode tolerar que haja homens que prefiram trabalhar menos e contentar- se com pouco para viver; como só a quantidade conta, e como o que não cai sob o domínio dos sentidos é tido como inexistente, admite que aquele que se não agita e que não produz materialmente só pode ser um “preguiçoso”. Mesmo sem falar das apreciações feitas correntemente acerca dos povos orientais, basta ver como são julgadas as ordens contemplativas, e isso mesmo nos meios chamados religiosos. Num tal mundo, não existe qualquer lugar para a inteligência nem para tudo o que é puramente interior, porque são coisas que não se vêem nem se tocam, que não se contam nem se pesam; não há lugar senão para a ação exterior sob todas as suas formas, incluindo as mais desprovidas de qualquer significação. Assim, não nos devemos espantar que a mania anglo-saxônica dos esportes ganhe cada dia mais terreno; o ideal desse mundo é o “animal humano” que desenvolveu ao máximo a sua força muscular. Os seus heróis são os atletas, mesmo que sejam brutos; são esses que suscitam o entusiasmo popular, é pelas suas proezas que as multidões se apaixonam. Um mundo onde se podem ver tais coisas caiu realmente muito baixo e parece muito perto do seu fim.
Todavia, coloquemo-nos por instantes no ponto de vista daqueles que situam o seu ideal no “bem-estar” material, e que a esse título se congratulam com todas as melhorias trazidas à existência pelo “progresso” moderno; estarão eles bem seguros de não serem enganados? Será verdade que os homens são hoje mais felizes do que outrora, porque dispõem de meios de comunicação mais rápidos ou outras coisas desse gênero, e porque têm uma vida agitada e mais complicada? Parece-nos que é exatamente o contrário, o desequilíbrio não pode ser a condição de uma verdadeira felicidade. Aliás, quanto mais um homem tem necessidades mais se arrisca a faltar-lhe qualquer coisa e, por conseqüência, a ser infeliz.
A civilização moderna visa multiplicar as necessidades artificiais e, como vimos anteriormente, ela criará sempre mais necessidades do que aquelas que poderá satisfazer porque, uma vez que se entrou nesse caminho, é muito difícil parar e não existe mesmo qualquer razão para se deter num ponto determinado. Os homens não poderiam sentir qualquer sofrimento por serem privados de coisas que não existissem e nas quais nem sequer nunca tivessem pensado; agora, pelo contrário, sofrem forçosamente se essas coisas lhes faltarem, visto que se habituaram a olhá-las como necessárias e que, de fato, elas se lhes tornaram necessárias. Assim, esforçam-se por todos os meios para adquirir o que lhes pode dar todas as satisfações materiais, as únicas que são capazes de apreciar: trata-se apenas de “ganhar dinheiro” porque é isso que permite obter as coisas e, quanto mais se tem, mais se quer ainda, porque se descobrem sempre novas necessidades, e essa paixão torna-se o único objetivo de toda a vida.[...]“
“[...]Daí, também, a inveja e mesmo o ódio dirigido pelos desprovidos de riqueza aos que a possuem; como é que homens a quem se pregaram as teorias “igualitárias” poderiam não se revoltar verificando à sua volta a desigualdade sob a forma que lhes deve ser mais sensível, visto que é a da ordem mais grosseira? Se a civilização moderna um dia se desmoronasse, empurrada pelos apetites desordenados que fez nascer nas massas, seria preciso estar muito cego para não ver nesse fato o justo castigo do seu vício fundamental, ou, para falar sem nenhuma fraseologia moral, o ricochete da sua própria ação no próprio domínio em que se exerceu.
Bem sei que alguns me censurarão por ter desprezado, ao falar do materialismo da civilização moderna, certos elementos que parecem constituir pelo menos uma atenuação desse materialismo. Com efeito, se não houvesse nenhuma atenuação, é muito provável que essa civilização já tivesse perecido lamentavelmente, portanto, não contesto a existência de tais elementos. Mas, ainda neste caso, não devemos nos iludir a esse respeito: por um lado, não é o caso de considerar aí tudo o que no campo filosófico se apresenta com etiquetas como as de “espiritualismo” e de “idealismo”, e que não passam de “moralismo” e “sentimentalismo” nas tendências contemporâneas.
Já me expliquei suficientemente a esse respeito, e lembro simplesmente que esses, para mim, são pontos de vista tão “profanos” como o do materialismo teórico ou prático, e que estão muito menos longe deles do que poderia parecer. Por outro lado, se há ainda restos de espiritualidade verdadeira, é apesar do espírito moderno e contra ele que subsistiram até aqui. Esses restos de espiritualidade, para tudo que é propriamente ocidental, só é possível encontrar na ordem religiosa; mas já vimos quanto a religião está hoje diminuída, quanto os seus próprios fiéis têm dela uma concepção estreita e medíocre, e a que ponto eliminaram dela toda a intelectualidade, que é a verdadeira espiritualidade. Nessas condições, se certas possibilidades ainda restam, elas só existem em estado latente, e, na atualidade, o seu papel efetivo reduz-se a bem pouca coisa. Nem por isso devemos deixar de admirar a vitalidade de uma tradição religiosa, que, mesmo reabsorvida numa espécie de virtualidade, persiste, apesar de todos os esforços tentados há vários séculos para a sufocar e aniquilar.[...]“
“[...]Onde estão os homens que conhecem o sentido profundo da doutrina que professam exteriormente, que não se contentam em “crer” de uma maneira mais ou menos superficial e mais pelo sentimento do que pela inteligência, mas que “sabem” realmente a verdade da tradição religiosa que consideram como sua? Eu quisera ter provas de que existem pelo menos alguns, porque isso seria para o Ocidente a maior e talvez a única esperança de salvação; mas devo confessar que até agora não os encontrei; devemos supor que, como certos sábios do Oriente, eles se mantêm escondidos em algum retiro quase inacessível, ou devemos renunciar definitivamente a essa última esperança?[...]“
“[...]O autor[Henri Massis], por vezes, nega ter querido atacar o verdadeiro Oriente; e se ele tivesse feito efetivamente uma crítica das fantasias “pseudo-orientais”, isto é, dessas teorias puramente ocidentais que se espalham com etiquetas enganadoras e que não passam de produtos do desequilíbrio atual, eu só poderia aprová-lo inteiramente, tanto mais que eu mesmo já assinalei, antes dele, o perigo real desse tipo de coisas, assim como a sua inutilidade do ponto de vista intelectual. Mas, infelizmente, logo a seguir, ele sente necessidade de atribuir ao Oriente concepções que não valem mais do que essas; para o fazer, apóia-se em citações pedidas de empréstimo a alguns orientalistas mais ou menos “oficiais” e em que as doutrinas orientais são, tal como acontece vulgarmente, deformadas até à caricatura. Que diria ele se alguém utilizasse o mesmo processo a respeito do Cristianismo e pretendesse julgá-lo segundo os trabalhos dos “hipercríticos” universitários? É exatamente o que ele faz em relação às doutrinas da Índia e da China, com a circunstância agravante de que os ocidentais cujo testemunho ele invoca não possuem o menor conhecimento direto dessas doutrinas, enquanto os seus colegas que se ocupam do Cristianismo devem conhecê-lo pelo menos numa certa medida, mesmo que a sua hostilidade contra o que é religioso os impeça de compreendê-lo verdadeiramente.
Aliás, devo dizer nesta altura que tive por vezes alguma dificuldade em fazer admitir pelos orientais que as exposições deste ou daquele orientalista procediam de uma incompreensão pura e simples, e não de um preconceito consciente e voluntário, de tal modo se sente nelas essa mesma hostilidade que é inerente ao espírito anti-tradicional; e eu perguntaria de bom grado ao sr. Massis se ele se julga muito hábil ao atacar a Tradição nos outros quando quer restaurá-la no seu próprio país.[...]“
“[...]O sr. Massis refere-se ao que chama “propagandistas orientais”, expressão que encerra em si própria uma contradição, porque o espírito de propaganda, repito, é coisa toda ela ocidental; e só isso já indica claramente que existe aí algum equivoco. De fato, entre os propagandistas visados podemos distinguir dois grupos, o primeiro dos quais é constituído por puros ocidentais; seria verdadeiramente cômico, se isso não fosse o sinal da mais deplorável ignorância das coisas do Oriente, ver que se faz figurar alemães e russos entre os representantes do espírito oriental. O autor faz a respeito deles observações entre as quais algumas são muito justas; mas por que é que não os mostra como eles são realmente?
A este primeiro grupo acrescentaremos ainda os “teosofistas” anglo-saxônicos e todos os inventores de outras seitas do mesmo gênero, cuja terminologia oriental é apenas uma máscara destinada a impor-se aos ingênuos e aos mal informados, e que encobre idéias tão estranhas ao Oriente como caras ao Ocidente moderno. Esses são, aliás, mais perigosos que os simples filósofos, em virtude das suas pretensões a um “esoterismo” que eles não possuem mas que simulam fraudulentamente para atrair a eles os espíritos que procuram outra coisa diferente das especulações “profanas” e que, no meio do caos presente, não sabem onde se dirigir. Espanta-me um pouco que o sr. Massis não diga quase nada a esse respeito. Quanto ao segundo grupo, encontram-se aí alguns desses orientais ocidentalizados de que falei há pouco e que, tão ignorantes como os anteriores acerca das verdadeiras idéias orientais, seriam incapazes de as espalhar no Ocidente, supondo que tivessem essa intenção.
De resto, o fim que eles se propõem realmente é contrário a esse, visto que se trata de destruir essas mesmas idéias no Oriente, e ao mesmo tempo apresentar aos ocidentais o seu Oriente modernizado, acomodado às teorias que lhes foram ensinadas na Europa ou na América. Verdadeiros agentes da mais nefasta de todas as propagandas ocidentais, a que ataca diretamente a inteligência, é para o Oriente que eles constituem um perigo, e não para o Ocidente, do qual eles não passam de reflexo. Quanto aos verdadeiros orientais, o sr. Massis não menciona um único, e teria bastante dificuldade em fazê-lo porque certamente não conhece nenhum; a impossibilidade em que ele se encontrava de citar o nome de um oriental que não fosse ocidentalizado deve tê-lo feito refletir e compreender que os “propagandistas orientais” são perfeitamente inexistentes.
Aliás, embora isso me obrigue a falar de mim, o que está fora dos meus hábitos, devo declarar formalmente o seguinte: que eu saiba, não há ninguém que tenha exposto no Ocidente idéias orientais autênticas, salvo eu mesmo; e o fiz sempre exatamente como o teria feito qualquer oriental que se encontrasse aí levado pelas circunstâncias, ou seja, sem a menor intenção de “propaganda” ou de “vulgarização”, e unicamente para aqueles que são capazes de compreender as doutrinas tais como elas são, sem que haja lugar para as desnaturar sob pretexto de colocá-las ao seu alcance.[...]“
“[...]a verdade é bem diferente: os representantes autênticos das doutrinas tradicionais não sentem ódio por ninguém, e a sua reserva só tem uma causa – é que eles julgam perfeitamente inútil expor certas verdades àqueles que são incapazes de as compreender. Mas nunca se recusaram a revelá-las àqueles, qualquer que seja a sua origem, que possuem as “qualificações” requeridas; será erro seu se entre estes últimos existem muito poucos ocidentais?[...]“
“[...]Como já repetimos muitas vezes, tudo deve começar pelo conhecimento; e o que parece estar mais afastado da ordem prática acaba por ser, no entanto, o mais eficaz nessa mesma ordem, porque, aí como em toda a parte, é aquilo sem o que é impossível efetuar qualquer coisa que seja realmente válida, que seja diferente de uma agitação vã e superficial. É por isso que, para voltar mais especialmente à questão que nos ocupa atualmente, pode-se dizer que, se todos os homens compreendessem o que é verdadeiramente o Mundo Moderno, este deixaria imediatamente de existir porque a sua existência, como a da ignorância e de tudo o que é limitação, é puramente negativa: não é mais do que a negação da verdade tradicional e supra-humana. Essa mudança produzir- se-ia, assim, sem qualquer catástrofe, o que parece quase impossível por qualquer outro meio; estarei então errado se afirmar que um tal conhecimento é susceptível de conseqüências práticas verdadeiramente incalculáveis? Mas, por outro lado, parece infelizmente bem difícil admitir que todos cheguem a esse conhecimento do qual a maior parte dos homens estão certamente mais afastados hoje do que nunca. É verdade que isso não é de nenhum modo necessário, porque basta uma elite, pouco numerosa mas fortemente constituída, para dar uma direção às massas, que obedeceriam às suas sugestões sem mesmo terem a menor idéia da sua existência nem dos seus meios de ação; a constituição efetiva dessa elite será ainda possível no Ocidente?[...]“
“[...]Só pode haver um obstáculo a isso: é o proselitismo ocidental, que não se decide a admitir que se deve, por vezes, ter “aliados” que não sejam “súditos”; ou, para falar com mais exatidão, é a falta de compreensão, da qual o proselitismo não passa de um efeito. Esse obstáculo será ultrapassado? Se não o for, a elite, para se constituir, poderá contar apenas com o esforço daqueles que sejam qualificados pela sua capacidade intelectual, fora de qualquer meio definido e também, bem entendido, com o apoio do Oriente. O seu trabalho se tornará mais difícil e a sua ação só poderá se exercer em um prazo mais longo, visto que terá que criar por si mesma todos os instrumentos, em lugar de os encontrar já preparados, como no outro caso; mas não penso, de modo algum, que essas dificuldades, por muito grandes que possam ser, sejam de natureza a impedir o que deve ser efetuado de uma maneira ou de outra.[...]“