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Terceiro e último “post” de trechos do Livro “A Crise do Mundo Moderno”, 1927, René Guénon.

Antes de prosseguirmos aos trechos, deixarei um link de um artigo sobre Guénon que saiu numa revista:

-http://dennymarquesani.sites.uol.com.br/semana/reneguenon.htm

Observação Importante sobre o link acima:

Ignore a referência a Gurdjieff e sua comparação com Guénon na página acima. Quem colocou a foto dele comparando-o com Guénon provavelmente não leu ou não entendeu Guénon. Gurdjieff é um típico representante da mentalidade neoespiritualista a que Guénon se opôs diametralmente. Guénon não era “ocultista”, ele desprezava o que chamamos de “ocultismo“, que para ele não passa de uma caricatura de espiritualidade, de uma salada ecumênica e que distorce e falsifica totalmente as verdades das religiões tradicionais. Assim, Gurdjieff e Guénon se encontram em pólos opostos.

Gurdjieff é um representante da neoespiritualidade, um dos principais, que abriu caminho para a deflagração de todo tipo de seita moderna “new age“(nova era), muitas das quais se apropriam de elementos externos de religiões orientais para incorporá-los  em suas pseudo-doutrinas e dar, assim, uma impressão de oriental, quando na verdade são parte do fenômeno maior do materialismo ocidental moderno – por isso, alguns chamam essa neoespiritualidade de “materialismo espiritual“, fenômeno que engloba desde as primeiras seitas ocultistas até coisas totalmente  atuais e grotescas em último grau, como o livro “O Segredo“, por exemplo, que na minha opinião não pode nem ser mais chamado de neoespiritualista(de materialismo espiritual), mas simplesmente de materialista.  Isso porque o neoespiritualismo tenta ao menos enganar que é espiritual, incorporando alguma idéia falseada e grosseira de “além”, enquanto que fenômenos mais atuais como “O Segredo” prescindem até mesmo de idéias desse tipo, sendo completamente e explicitamente materialistas, integralmente focados no mundano e no profano. Em suma, meros meios de tapear pessoas ingênuas com o objetivo de ganhar dinheiro. E nem de longe são materialistas no sentido em que o eram alguns antigos, gregos, na época das invasões de Alexandre[epicuristas, estóicos, etc.]; são materialistas de uma forma muito mais grosseira e estúpida. Hoje em dia, quando se fala em hedonismo, por exemplo, as pessoas pensam logo em orgias e todo tipo de depravações. Na Grécia, o hedonismo não tinha nada que ver com isso. E, se levarmos em conta que esses movimentos gregos já eram sinais acentuados de decadência intelectual, o que dizer dos movimentos de hoje em dia? E que tais movimentos neoespiritualistas dos mais estapafúrdios e bizarros(totalmente “nonsense”) ganhem tanto terreno só revela em que situação degradante estamos. E isso depois de milênios de debates e meditações profundas no oriente e de séculos de discussões teológicas no ocidente. Tudo isso é ignorado pelas novas gerações, que só buscam o que é fácil e está na moda.

René Guénon é um representante da tradição. Suas fonte é a própria ortodoxia, o pensamento mais antigo e mais tradicional. Ele trata de metafísica pura, daquilo que é supra-religioso. Apesar de este livro específico(A Crise do Mundo Moderno) não tratar destes temas.

Vamos agora aos trechos de crítica ao mundo moderno:

“[...]Para os modernos, nada aparece existir fora do que se pode ver e tocar, ou pelo menos, mesmo se admitem teoricamente que pode existir qualquer outra coisa, apressam-se a declará-la não apenas desconhecida mas também incognoscível, o que os dispensa de se ocuparem dela. Todavia, se há quem tente fazer alguma coisa de um “outro mundo”, como para isso não faz apelo senão à imaginação, representa-o segundo o modelo do mundo terrestre e transporta para aí todas as condições de existência que são próprias deste, incluindo o espaço e o tempo, até mesmo uma espécie de “corporeidade”. Mostrei em outro livro, entre as concepções espíritas, exemplos particularmente chocantes desse gênero de representações grosseiramente materializadas; mas se esse é um caso extremo, em que tal caráter é exagerado até à caricatura, seria um erro acreditar que o Espiritismo e as seitas que lhe são mais ou menos aparentadas têm o monopólio desse gênero de coisas. De resto, de um modo mais geral, a intervenção da imaginação nos domínios em que ela nada pode dar, e que deveriam normalmente ser-lhe interditos, é um fato que mostra muito nitidamente a incapacidade dos ocidentais modernos de se elevarem acima do sensível. Muitos não sabem estabelecer qualquer diferença entre “conceber” e “imaginar“, e certos filósofos, como Kant, chegam ao ponto de declarar “inconcebível” ou “impensável” tudo o que não é susceptível de representação. Também tudo o que se chama “espiritualismo” ou “idealismo” é, na maior parte das vezes, uma espécie de materialismo transposto. Isso não é verdadeiro somente para o que designamos pelo nome de “neo-espiritualismo”, mas também para o próprio espiritualismo filosófico, que se considera, no entanto, como o oposto do materialismo. Para dizer a verdade, espiritualismo e materialismo, entendidos no sentido filosófico, só se podem compreender um pelo outro: são simplesmente as duas metades do dualismo cartesiano, cuja separação radical foi transformada numa espécie de antagonismo, e desde então toda a Filosofia oscila entre estes dois termos sem poder ultrapassá-los. O espiritualismo, apesar do seu nome, nada tem em comum com a espiritualidade; o seu debate com o materialismo só pode deixar perfeitamente indiferentes aqueles que se situam num ponto de vista superior, e que vêem que esses contrários, no fundo, estão bem perto de ser simples equivalentes. Sua pretensa oposição sobre muitos pontos se reduz a uma vulgar disputa de palavras.[...]“

“[...]A propósito de “realidade” mencionarei outro fato, que se arrisca a passar despercebido para muitos, mas que é muito digno de nota como sinal do estado de espírito que estamos examinando: é que esse nome, na sua utilização corrente, é exclusivamente reservado à realidade sensível. Como a linguagem é a expressão da mentalidade de um povo e de uma época, é necessário concluir daí que, para aqueles que falam assim, tudo o que não cai no domínio dos sentidos é “irreal”, quer dizer, ilusório ou mesmo inexistente. Pode ser que não tenham clara consciência disso, mas essa convicção negativa existe no fundo de si mesmos e, se afirmam o contrário, podemos estar bem seguros que, embora não se dêem conta, essa afirmação corresponde neles a um nível muito mais exterior, talvez mesmo puramente verbal. No caso de se julgar que eu exagero, bastará ver, por exemplo, ao que se reduzem as pretensas convicções religiosas de muitas pessoas: algumas noções aprendidas de cor, de modo escolar e maquinal, que eles nunca assimilaram de modo algum e nas quais nem sequer refletiram um mínimo, mas que conservam na sua memória e que repetem ocasionalmente porque fazem parte de um certo formalismo, de uma atitude convencional que é tudo o que podem entender pelo nome de religião. Já tratei dessa “minimização” da religião, de que o “verbalismo” em questão representa um dos últimos graus; é ela que explica que os chamados “crentes”, em matéria de materialismo prático, não fiquem em nada atrás dos “descrentes”. Voltaremos ainda a esse ponto, mas, antes disso, terminemos as considerações que dizem respeito ao caráter materialista da ciência moderna, porque essa é uma questão que pede para ser encarada sob diferentes aspectos.[...]“

“[...]É para o “bom senso“, sobretudo, que só o mundo sensível é “real” e que não há conhecimento que não venha dos sentidos. E para ele esse conhecimento restrito só vale na medida em que permite dar satisfação a necessidades materiais, e, por vezes, a um certo sentimentalismo, porque (devo dizer claramente, com risco de chocar o “moralismo” contemporâneo) o sentimento está, na realidade, muito perto da matéria. Em tudo isso, não resta nenhum lugar para a inteligência[...]“

“[...]Se alguém se quiser convencer ainda mais desta verdade, basta ver o papel imenso que hoje desempenham, tanto na existência dos povos como na dos indivíduos, os elementos de ordem econômica: indústria, comércio, finanças. Parece que só isso conta, o que está de acordo com o fato, já assinalado, de que a única distinção social que subsistiu é a que se baseia na riqueza material. Parece que o poder financeiro domina toda a política, que a concorrência comercial exerce uma influência preponderante nas relações entre os povos. Talvez isso não passe de uma aparência e essas coisas não sejam as verdadeiras causas, mas simples meios de ação; mas a escolha de tais meios indica bem o caráter da época à qual eles convêm. Aliás, os nossos contemporâneos estão persuadidos de que as circunstâncias econômicas são quase os únicos fatores dos acontecimentos históricos, e imaginam mesmo que foi sempre assim. Neste sentido, chegou-se a ponto de inventar uma teoria que pretende tudo explicar exclusivamente desse modo e que recebeu a denominação significativa de “materialismo histórico“.[...]“

“[...]Pode-se ver ainda aí o efeito de uma dessas sugestões às quais fiz alusão mais atrás, que atuam tanto melhor quanto mais correspondem às tendências da mentalidade geral; e o efeito dessa sugestão é o de que os meios econômicos acabam por determinar realmente quase tudo o que se produz no domínio social. Sem dúvida as massas sempre foram conduzidas de um modo ou de outro, e poder-se-ia dizer que o seu papel histórico consiste sobretudo em se deixarem conduzir, porque representam apenas um elemento passivo, uma “matéria” no sentido aristotélico. Mas hoje, para as conduzir, basta dispor de meios puramente materiais, desta vez no sentido vulgar da palavra, o que mostra bem o grau de abaixamento da nossa época; e, ao mesmo tempo, faz-se crer a essas massas que elas não são conduzidas, que agem espontaneamente e se governam a si próprias, e o fato de que elas acreditam nisso permite entrever até onde pode ir a sua falta de inteligência.[...]“

“[...]De resto, fora da questão das relações do Oriente e do Ocidente, é fácil verificar que uma das mais notáveis conseqüências do desenvolvimento industrial é o aperfeiçoamento incessante dos engenhos de guerra e o aumento do seu poder destrutivo em proporções formidáveis. Apenas isto deveria bastar para aniquilar os delíriospacifistas” de certos admiradores do “progresso” moderno, mas os sonhadores e os “idealistas” são incorrigíveis e a sua ingenuidade parece não ter limites. O “humanitarismo” que está tanto em moda não merece seguramente ser levado a sério; mas é estranho que se fale tanto do final das guerras numa época em que elas fazem mais estragos do que nunca fizeram, não somente devido à multiplicação dos meios de destruição, mas também porque, em lugar de se desenrolarem entre exércitos pouco numerosos e compostos unicamente de soldados de profissão, lançam todos os indivíduos uns contra os outros, indistintamente, incluindo os menos qualificados para desempenhar semelhante função.[...]“

“[...]Admitindo que o desenvolvimento material tenha algumas vantagens, ainda que de um ponto de vista muito relativo, podemos nos perguntar, quando encaramos conseqüências como as que acabam de ser assinaladas, se essas vantagens não são muito ultrapassadas pelos inconvenientes. Nem sequer olhamos tudo o que foi sacrificado a esse desenvolvimento exclusivo, e que valia incomparavelmente mais; não mencionei os conhecimentos superiores esquecidos, a intelectualidade destruída, a espiritualidade desaparecida; acredito que se tomarmos simplesmente a civilização moderna em si mesma, e pusermos em paralelo as vantagens e os inconvenientes do que ela produziu, o resultado arrisca-se muito a ser negativo. As invenções que se vão multiplicando atualmente com uma rapidez sempre crescente são tanto mais perigosas quanto põem em jogo forças cuja verdadeira natureza é inteiramente desconhecida daqueles mesmos que as utilizam[...]“

“[...]Primeiro, há que se ter em conta o fato de que nem todos os homens têm os mesmos gostos nem as mesmas necessidades; que ainda há alguns, apesar de tudo, que desejariam escapar à agitação moderna, à loucura da velocidade e não o podem fazer; haverá quem ouse sustentar que, para esses, seja um “benefício” impor-lhes o que é mais contrário à sua natureza? Dir-se-á que esses homens são atualmente pouco numerosos, e por esse fato seria permitido tê-los como quantidade desprezível; aí, como no campo político, a maioria arroga-se o direito de esmagar as minorias, que, aos seus olhos, cometem evidentemente o erro de existir, visto que essa existência vai contra a mania “igualitária” da uniformidade. Mas se considerarmos o conjunto da Humanidade, em vez de nos limitarmos ao mundo ocidental, a questão muda de aspecto: a maioria de há pouco não irá se tornar uma minoria? Assim, não é o mesmo argumento que se faz valer neste caso e, por uma estranha contradição, é em nome da sua “superioridade” que estes “igualitários” querem impor a sua civilização ao resto do Mundo e que vão levar a perturbação a povos que nada lhes pediram. E como essa “superioridade” só existe do ponto de vista material, é natural que ela se imponha pelos meios mais brutais.[...]“

“[...]Mas que singular época esta em que tantos homens se deixam convencer que se faz a felicidade de um povo submetendo- o, retirando-lhe o que ele tem de mais precioso, ou seja, a sua própria civilização, obrigando-o a adotar costumes e instituições que são feitas para outra raça, e constrangendo-o aos trabalhos mais penosos para adquirir coisas que lhe são perfeitamente inúteis! Porque é assim: o Ocidente moderno não pode tolerar que haja homens que prefiram trabalhar menos e contentar- se com pouco para viver; como só a quantidade conta, e como o que não cai sob o domínio dos sentidos é tido como inexistente, admite que aquele que se não agita e que não produz materialmente só pode ser um “preguiçoso”. Mesmo sem falar das apreciações feitas correntemente acerca dos povos orientais, basta ver como são julgadas as ordens contemplativas, e isso mesmo nos meios chamados religiosos. Num tal mundo, não existe qualquer lugar para a inteligência nem para tudo o que é puramente interior, porque são coisas que não se vêem nem se tocam, que não se contam nem se pesam; não há lugar senão para a ação exterior sob todas as suas formas, incluindo as mais desprovidas de qualquer significação. Assim, não nos devemos espantar que a mania anglo-saxônica dos esportes ganhe cada dia mais terreno; o ideal desse mundo é o “animal humano” que desenvolveu ao máximo a sua força muscular. Os seus heróis são os atletas, mesmo que sejam brutos; são esses que suscitam o entusiasmo popular, é pelas suas proezas que as multidões se apaixonam. Um mundo onde se podem ver tais coisas caiu realmente muito baixo e parece muito perto do seu fim.

Todavia, coloquemo-nos por instantes no ponto de vista daqueles que situam o seu ideal no “bem-estar” material, e que a esse título se congratulam com todas as melhorias trazidas à existência pelo “progresso” moderno; estarão eles bem seguros de não serem enganados? Será verdade que os homens são hoje mais felizes do que outrora, porque dispõem de meios de comunicação mais rápidos ou outras coisas desse gênero, e porque têm uma vida agitada e mais complicada? Parece-nos que é exatamente o contrário, o desequilíbrio não pode ser a condição de uma verdadeira felicidade. Aliás, quanto mais um homem tem necessidades mais se arrisca a faltar-lhe qualquer coisa e, por conseqüência, a ser infeliz.

A civilização moderna visa multiplicar as necessidades artificiais e, como vimos anteriormente, ela criará sempre mais necessidades do que aquelas que poderá satisfazer porque, uma vez que se entrou nesse caminho, é muito difícil parar e não existe mesmo qualquer razão para se deter num ponto determinado. Os homens não poderiam sentir qualquer sofrimento por serem privados de coisas que não existissem e nas quais nem sequer nunca tivessem pensado; agora, pelo contrário, sofrem forçosamente se essas coisas lhes faltarem, visto que se habituaram a olhá-las como necessárias e que, de fato, elas se lhes tornaram necessárias. Assim, esforçam-se por todos os meios para adquirir o que lhes pode dar todas as satisfações materiais, as únicas que são capazes de apreciar: trata-se apenas de “ganhar dinheiro” porque é isso que permite obter as coisas e, quanto mais se tem, mais se quer ainda, porque se descobrem sempre novas necessidades, e essa paixão torna-se o único objetivo de toda a vida.[...]“

“[...]Daí, também, a inveja e mesmo o ódio dirigido pelos desprovidos de riqueza aos que a possuem; como é que homens a quem se pregaram as teorias “igualitárias” poderiam não se revoltar verificando à sua volta a desigualdade sob a forma que lhes deve ser mais sensível, visto que é a da ordem mais grosseira? Se a civilização moderna um dia se desmoronasse, empurrada pelos apetites desordenados que fez nascer nas massas, seria preciso estar muito cego para não ver nesse fato o justo castigo do seu vício fundamental, ou, para falar sem nenhuma fraseologia moral, o ricochete da sua própria ação no próprio domínio em que se exerceu.

Bem sei que alguns me censurarão por ter desprezado, ao falar do materialismo da civilização moderna, certos elementos que parecem constituir pelo menos uma atenuação desse materialismo. Com efeito, se não houvesse nenhuma atenuação, é muito provável que essa civilização já tivesse perecido lamentavelmente, portanto, não contesto a existência de tais elementos. Mas, ainda neste caso, não devemos nos iludir a esse respeito: por um lado, não é o caso de considerar aí tudo o que no campo filosófico se apresenta com etiquetas como as de “espiritualismo” e de “idealismo”, e que não passam de “moralismo” e “sentimentalismo” nas tendências contemporâneas.

Já me expliquei suficientemente a esse respeito, e lembro simplesmente que esses, para mim, são pontos de vista tão “profanos” como o do materialismo teórico ou prático, e que estão muito menos longe deles do que poderia parecer. Por outro lado, se há ainda restos de espiritualidade verdadeira, é apesar do espírito moderno e contra ele que subsistiram até aqui. Esses restos de espiritualidade, para tudo que é propriamente ocidental, só é possível encontrar na ordem religiosa; mas já vimos quanto a religião está hoje diminuída, quanto os seus próprios fiéis têm dela uma concepção estreita e medíocre, e a que ponto eliminaram dela toda a intelectualidade, que é a verdadeira espiritualidade. Nessas condições, se certas possibilidades ainda restam, elas só existem em estado latente, e, na atualidade, o seu papel efetivo reduz-se a bem pouca coisa. Nem por isso devemos deixar de admirar a vitalidade de uma tradição religiosa, que, mesmo reabsorvida numa espécie de virtualidade, persiste, apesar de todos os esforços tentados há vários séculos para a sufocar e aniquilar.[...]“

“[...]Onde estão os homens que conhecem o sentido profundo da doutrina que professam exteriormente, que não se contentam em “crer” de uma maneira mais ou menos superficial e mais pelo sentimento do que pela inteligência, mas que “sabem” realmente a verdade da tradição religiosa que consideram como sua? Eu quisera ter provas de que existem pelo menos alguns, porque isso seria para o Ocidente a maior e talvez a única esperança de salvação; mas devo confessar que até agora não os encontrei; devemos supor que, como certos sábios do Oriente, eles se mantêm escondidos em algum retiro quase inacessível, ou devemos renunciar definitivamente a essa última esperança?[...]“

“[...]O autor[Henri Massis], por vezes, nega ter querido atacar o verdadeiro Oriente; e se ele tivesse feito efetivamente uma crítica das fantasias “pseudo-orientais”, isto é, dessas teorias puramente ocidentais que se espalham com etiquetas enganadoras e que não passam de produtos do desequilíbrio atual, eu só poderia aprová-lo inteiramente, tanto mais que eu mesmo já assinalei, antes dele, o perigo real desse tipo de coisas, assim como a sua inutilidade do ponto de vista intelectual. Mas, infelizmente, logo a seguir, ele sente necessidade de atribuir ao Oriente concepções que não valem mais do que essas; para o fazer, apóia-se em citações pedidas de empréstimo a alguns orientalistas mais ou menos “oficiais” e em que as doutrinas orientais são, tal como acontece vulgarmente, deformadas até à caricatura. Que diria ele se alguém utilizasse o mesmo processo a respeito do Cristianismo e pretendesse julgá-lo segundo os trabalhos dos “hipercríticosuniversitários? É exatamente o que ele faz em relação às doutrinas da Índia e da China, com a circunstância agravante de que os ocidentais cujo testemunho ele invoca não possuem o menor conhecimento direto dessas doutrinas, enquanto os seus colegas que se ocupam do Cristianismo devem conhecê-lo pelo menos numa certa medida, mesmo que a sua hostilidade contra o que é religioso os impeça de compreendê-lo verdadeiramente.

Aliás, devo dizer nesta altura que tive por vezes alguma dificuldade em fazer admitir pelos orientais que as exposições deste ou daquele orientalista procediam de uma incompreensão pura e simples, e não de um preconceito consciente e voluntário, de tal modo se sente nelas essa mesma hostilidade que é inerente ao espírito anti-tradicional; e eu perguntaria de bom grado ao sr. Massis se ele se julga muito hábil ao atacar a Tradição nos outros quando quer restaurá-la no seu próprio país.[...]“

“[...]O sr. Massis refere-se ao que chama “propagandistas orientais”, expressão que encerra em si própria uma contradição, porque o espírito de propaganda, repito, é coisa toda ela ocidental; e só isso já indica claramente que existe aí algum equivoco. De fato, entre os propagandistas visados podemos distinguir dois grupos, o primeiro dos quais é constituído por puros ocidentais; seria verdadeiramente cômico, se isso não fosse o sinal da mais deplorável ignorância das coisas do Oriente, ver que se faz figurar alemães e russos entre os representantes do espírito oriental. O autor faz a respeito deles observações entre as quais algumas são muito justas; mas por que é que não os mostra como eles são realmente?

A este primeiro grupo acrescentaremos ainda os “teosofistasanglo-saxônicos e todos os inventores de outras seitas do mesmo gênero, cuja terminologia oriental é apenas uma máscara destinada a impor-se aos ingênuos e aos mal informados, e que encobre idéias tão estranhas ao Oriente como caras ao Ocidente moderno. Esses são, aliás, mais perigosos que os simples filósofos, em virtude das suas pretensões a um “esoterismo” que eles não possuem mas que simulam fraudulentamente para atrair a eles os espíritos que procuram outra coisa diferente das especulações “profanas” e que, no meio do caos presente, não sabem onde se dirigir. Espanta-me um pouco que o sr. Massis não diga quase nada a esse respeito. Quanto ao segundo grupo, encontram-se aí alguns desses orientais ocidentalizados de que falei há pouco e que, tão ignorantes como os anteriores acerca das verdadeiras idéias orientais, seriam incapazes de as espalhar no Ocidente, supondo que tivessem essa intenção.

De resto, o fim que eles se propõem realmente é contrário a esse, visto que se trata de destruir essas mesmas idéias no Oriente, e ao mesmo tempo apresentar aos ocidentais o seu Oriente modernizado, acomodado às teorias que lhes foram ensinadas na Europa ou na América. Verdadeiros agentes da mais nefasta de todas as propagandas ocidentais, a que ataca diretamente a inteligência, é para o Oriente que eles constituem um perigo, e não para o Ocidente, do qual eles não passam de reflexo. Quanto aos verdadeiros orientais, o sr. Massis não menciona um único, e teria bastante dificuldade em fazê-lo porque certamente não conhece nenhum; a impossibilidade em que ele se encontrava de citar o nome de um oriental que não fosse ocidentalizado deve tê-lo feito refletir e compreender que os “propagandistas orientaissão perfeitamente inexistentes.

Aliás, embora isso me obrigue a falar de mim, o que está fora dos meus hábitos, devo declarar formalmente o seguinte: que eu saiba, não há ninguém que tenha exposto no Ocidente idéias orientais autênticas, salvo eu mesmo; e o fiz sempre exatamente como o teria feito qualquer oriental que se encontrasse aí levado pelas circunstâncias, ou seja, sem a menor intenção de “propaganda” ou de “vulgarização”, e unicamente para aqueles que são capazes de compreender as doutrinas tais como elas são, sem que haja lugar para as desnaturar sob pretexto de colocá-las ao seu alcance.[...]“

“[...]a verdade é bem diferente: os representantes autênticos das doutrinas tradicionais não sentem ódio por ninguém, e a sua reserva só tem uma causa – é que eles julgam perfeitamente inútil expor certas verdades àqueles que são incapazes de as compreender. Mas nunca se recusaram a revelá-las àqueles, qualquer que seja a sua origem, que possuem as “qualificações” requeridas; será erro seu se entre estes últimos existem muito poucos ocidentais?[...]“

“[...]Como já repetimos muitas vezes, tudo deve começar pelo conhecimento; e o que parece estar mais afastado da ordem prática acaba por ser, no entanto, o mais eficaz nessa mesma ordem, porque, aí como em toda a parte, é aquilo sem o que é impossível efetuar qualquer coisa que seja realmente válida, que seja diferente de uma agitação vã e superficial. É por isso que, para voltar mais especialmente à questão que nos ocupa atualmente, pode-se dizer que, se todos os homens compreendessem o que é verdadeiramente o Mundo Moderno, este deixaria imediatamente de existir porque a sua existência, como a da ignorância e de tudo o que é limitação, é puramente negativa: não é mais do que a negação da verdade tradicional e supra-humana. Essa mudança produzir- se-ia, assim, sem qualquer catástrofe, o que parece quase impossível por qualquer outro meio; estarei então errado se afirmar que um tal conhecimento é susceptível de conseqüências práticas verdadeiramente incalculáveis? Mas, por outro lado, parece infelizmente bem difícil admitir que todos cheguem a esse conhecimento do qual a maior parte dos homens estão certamente mais afastados hoje do que nunca. É verdade que isso não é de nenhum modo necessário, porque basta uma elite, pouco numerosa mas fortemente constituída, para dar uma direção às massas, que obedeceriam às suas sugestões sem mesmo terem a menor idéia da sua existência nem dos seus meios de ação; a constituição efetiva dessa elite será ainda possível no Ocidente?[...]“

“[...]Só pode haver um obstáculo a isso: é o proselitismo ocidental, que não se decide a admitir que se deve, por vezes, ter “aliados” que não sejam “súditos”; ou, para falar com mais exatidão, é a falta de compreensão, da qual o proselitismo não passa de um efeito. Esse obstáculo será ultrapassado? Se não o for, a elite, para se constituir, poderá contar apenas com o esforço daqueles que sejam qualificados pela sua capacidade intelectual, fora de qualquer meio definido e também, bem entendido, com o apoio do Oriente. O seu trabalho se tornará mais difícil e a sua ação só poderá se exercer em um prazo mais longo, visto que terá que criar por si mesma todos os instrumentos, em lugar de os encontrar já preparados, como no outro caso; mas não penso, de modo algum, que essas dificuldades, por muito grandes que possam ser, sejam de natureza a impedir o que deve ser efetuado de uma maneira ou de outra.[...]“

Este é o segundo post da série “A Crise do Mundo Moderno”, título de um livro de René Guénon escrito em 1927. Vale a pena comentar que a situação piorou muito de lá pra cá, haja vista a invasão ocidental ao oriente, que tomou proporções estratosféricas.

Prosseguiremos então com novos trechos:

“[...]Visto que acabei por falar do “experimentalismo”, devo aproveitar a ocasião para responder a uma pergunta que se pode colocar a este respeito: por que é que as ciências propriamente experimentais receberam, na civilização moderna, um desenvolvimento  que nunca tiveram noutras civilizações? É que estas ciências são as do mundo sensível, as da matéria, e também são as que dão lugar a aplicações práticas mais imediatas. O seu desenvolvimento, acompanhado do que eu chamaria de boa vontade a “superstição do fato”, corresponde, então, às tendências especificamente modernas, enquanto, pelo contrário, as épocas precedentes não tinham encontrado aí suficientes motivos de interesse para se prenderem a elas a ponto de desprezar os conhecimentos de ordem superior.

É necessário compreender que não se trata de declarar ilegítimo em si mesmo um conhecimento qualquer, mesmo que seja inferior; o que é ilegítimo é apenas o abuso que se produz quando coisas deste gênero absorvem toda a atividade humana, tal como vemos atualmente. Poderíamos mesmo conceber que, numa civilização normal, ciências constituídas por um método experimental estivessem ligadas aos princípios, tal como outras, e providas, assim, de um real valor especulativo. De fato, se este valor não parece ter-se apresentado é que a atenção foi dada de preferência a outro aspecto, e também porque, quando se tratava de estudar o mundo sensível na medida em que parecia interessante fazê-lo, os dados tradicionais permitiam efetuar mais favoravelmente esse estudo por outros métodos e de um outro ponto de vista.[...]“

“[...]Trata-se também, para esses mesmos filósofos, de ligar o seu nome a um “sistema”, quer dizer, a um conjunto de teorias estritamente reduzido e limitado que seja bem deles, que não seja outra coisa senão a sua própria obra. Daí o desejo de ser original a todo preço, mesmo que a verdade deva ser sacrificada a essa originalidade: mais vale, para o prestígio de um filósofo, inventar um erro novo do que repetir uma verdade que foi já exprimida por outros. Essa forma do individualismo, à qual se devem tantos “sistemas” contraditórios uns aos outros, quando não o são em si mesmos, encontra-se tanto entre os sábios como entre os artistas modernos, mas é talvez entre os filósofos que se pode ver mais nitidamente a anarquia intelectual que é a sua inevitável conseqüência. Numa civilização tradicional é quase inconcebível que um homem pretenda reivindicar a propriedade de uma idéia, e, em todo o caso, se o faz, por esse mesmo fato retira-lhe todo o crédito e toda a autoridade, porque a reduz assim a ser apenas uma espécie de fantasia sem qualquer alcance real: se uma idéia é verdadeira, ela pertence igualmente a todos aqueles que são capazes de compreendê-la; se ela é falsa, não há motivo para se vangloriar de tê-la inventado. Uma idéia verdadeira não será “nova”, porque a verdade não é um produto do espírito humano, existe independentemente de nós e temos somente que a conhecer. Fora desse conhecimento só pode haver o erro; mas, no fundo, estarão os modernos preocupados com a verdade e saberão mesmo ainda o que ela é? Também aí as palavras perderam o seu sentido, visto que alguns, como os “pragmatistas” contemporâneos, chegam a ponto de atribuir abusivamente este nome “verdade” ao que é muito simplesmente a utilidade prática, ou seja, a algo que é inteiramente estranho à ordem intelectual.[...]“

“[...]Mas não é tudo: o individualismo arrasta inevitavelmente consigo o “naturalismo”, visto que tudo o que está para além da Natureza está, por isso mesmo, fora do alcance do indivíduo enquanto tal. “Naturalismo” e negação da Metafísica são uma e a mesma coisa, e como que a intuição intelectual é desconhecida, não há mais Metafísica possível. Enquanto alguns se obstinam, no entanto, em construir uma “pseudo-Metafísica” qualquer, outros reconhecem mais francamente essa impossibilidade; daí o “relativismo” sob todas as suas formas, seja o “criticismo” de Kant ou o “positivismo” de Auguste Comte.[...]“

“[...]Tal é, com efeito, a posição tomada por essa forma do “evolucionismo” que é o “intuicionismobergsoniano, o qual, bem entendido, é tão individualista e antimetafísico quanto o “racionalismo” e, embora critique justamente este, cai ainda mais baixo ao fazer apelo a uma faculdade propriamente infra-racional, a uma intuição sensível bastante mal definida e mais ou menos misturada com imaginação, instinto e sentimento.[...]“

“[...]para o ponto de vista que eu adoto, o começo dessa ruptura data do século 16 e de fato é aí, e não um ou dois séculos mais tarde, que se deve fazer começar os tempos modernos.

É sobre essa ruptura com a Tradição que insistirei ainda, visto que foi dela que nasceu o Mundo Moderno, cujas características próprias todas poderiam ser resumidas numa só: a oposição ao espírito tradicional, que é o individualismo. Isto, de resto, está em perfeito acordo com o que foi dito até aqui, visto que são a intuição intelectual e a doutrina metafísica pura que estão no princípio de toda a civilização tradicional; negando-se o princípio negam-se também todas as conseqüências, pelo menos implicitamente e, assim, todo o conjunto que verdadeiramente merece o nome de Tradição encontra-se destruído por isso mesmo.[..]“

“[...]Significaria isto que, pelo menos aí[no Catolicismo], podemos falar de uma conservação integral da Tradição, ao abrigo de qualquer ataque do espírito moderno? Infelizmente não parece que seja assim; ou, para falar com mais exatidão, se o depósito da Tradição permaneceu intacto, o que já é muito, é bastante duvidoso que o seu sentido profundo seja ainda compreendido efetivamente, mesmo por uma elite pouco numerosa, cuja existência se manifestaria sem dúvida por uma ação, ou melhor, por uma influência que de fato não verificamos em parte nenhuma. Trata-se, então, certamente, do que chamaríamos de bom grado de conservação no estado latente, permitindo sempre, àqueles que forem capazes disso, encontrar o sentido da Tradição, mesmo que esse sentido não fosse atualmente consciente para ninguém.
Há também, aliás, dispersos aqui e ali no Mundo ocidental, fora do domínio religioso, muitos sinais ou símbolos que provêm de antigas doutrinas tradicionais e que são conservados sem serem compreendidos. Nesses casos, um contato com o espírito tradicional plenamente vivo é necessário para despertar o que está assim mergulhado numa espécie de sono, para restaurar a compreensão perdida. E, repito, é sobretudo nesse aspecto que o Ocidente terá necessidade do auxílio do Oriente se quiser voltar à consciência da sua própria Tradição.[...]“

“[...]Mas, falando do estado presente do catolicismo, quem quisesse entender a maneira como ele é encarado pela grande maioria dos seus próprios aderentes seria obrigado a verificar uma ação mais positiva do espírito moderno, se essa expressão pode ser utilizada para algo que, na realidade, é essencialmente negativo.[..]“

“[...]Alguém pode julgar-se sinceramente religioso e, no fundo, não o ser de modo nenhum, pode mesmo afirmar-se “tradicionalista” sem possuir a menor noção do verdadeiro espírito tradicional; esse é um dos sintomas da desordem mental da nossa época. O estado de espírito ao qual faço alusão é, primeiramente, aquele que consiste, se assim se pode dizer, em “minimizar” a religião, em fazer dela uma coisa que se põe à parte, à qual se indica um lugar bem delimitado e tão estreito quanto possível, algo que não tem nenhuma influência real sobre o resto da existência e que está isolada dela por uma espécie de divisão estanque. Haverá hoje muitos católicos que tenham na vida corrente maneiras de pensar e de agir sensivelmente diferentes das dos seus contemporâneos mais “arreligiosos”?[...]“

“[...]É também a ignorância quase completa do ponto de vista doutrinal, e mesmo a indiferença a respeito de tudo o que se lhe refere. A religião, para muitos, é simplesmente uma questão de “prática”, de hábito, para não dizer de rotina, e abstêm-se cuidadosamente de procurar compreender o que quer que seja, chegam mesmo a pensar que é inútil compreender ou talvez que não há nada para compreender. De resto, se compreendessem verdadeiramente a religião, poderiam atribuir-lhe um lugar tão medíocre entre as suas preocupações? A doutrina encontra-se, então, de fato esquecida ou reduzida a quase nada, o que se aproxima singularmente da concepção protestante, porque é um efeito das mesmas tendências modernas, opostas a toda intelectualidade; e o mais deplorável é que o ensino que é dado geralmente, em lugar de reagir contra esse estado de espírito, pelo contrário favorece-o, adaptando-se bem demais a ele.[...]“

“[...]Fala-se sempre de moral, não se fala quase nunca de doutrina, sob pretexto de que esta não seria compreendida; a religião agora não é mais do que “moralismo”[e "sentimentalismo"] ou, pelo menos, parece que ninguém quer mais ver o que ela é realmente, e que se trata de coisa diferente. Se ainda se chega, no entanto, a falar algumas vezes de doutrina, é em geral para rebaixá-la, discutindo com adversários no seu próprio terreno “profano”, o que conduz inevitavelmente a fazer-lhes as concessões mais injustificadas.[...]“

“[...]No domínio das opiniões individuais pode-se sempre discutir, porque não se ultrapassa a ordem racional e porque, não fazendo apelo a qualquer princípio superior, é fácil encontrar argumentos mais ou menos válidos para sustentar os “prós” e os “contras”. Pode-se mesmo, em muitos casos, prosseguir a discussão indefinidamente, sem chegar a nenhuma solução, e é assim que quase toda a Filosofia moderna é feita de equívocos e de questões mal postas. Bem longe de esclarecer as questões, como se supõe vulgarmente, a discussão quase sempre meramente as desloca, senão mesmo as obscurece ainda mais; e o resultado mais habitual é que cada um, esforçando-se por convencer o seu adversário, agarra-se cada vez mais à sua própria opinião e encerra-se nela de modo ainda mais exclusivo do que antes.
Em tudo isso, no fundo, não se trata de chegar ao conhecimento da verdade, mas de ter razão apesar de tudo ou, pelo menos, a persuadir-se a si próprio, se não for possível persuadir os outros. Essa impossibilidade, aliás, será ainda mais lamentada porque se mistura sempre nisso a necessidade de “proselitismo” que é também um dos elementos mais característicos do espírito ocidental.[...]“

“[...]Mas volto ainda um instante à introdução dos hábitos de discussão em domínios nos quais esta não deveria entrar, para dizer claramente isto: a atitude “apologética” é, em si mesma, uma atitude extremamente fraca, porque é puramente “defensiva”, no sentido jurídico desta palavra.[...]“

“[...]Aqueles que são qualificados para falar em nome de uma doutrina tradicional não têm que discutir com os “profanos” nem que entrar em “polêmica”; só têm que expor a doutrina tal como ela é, para aqueles que a podem compreender, e, ao mesmo tempo, denunciar o erro por toda a parte onde ele se encontre, fazendo-o aparecer como tal e projetando sobre ele a luz do verdadeiro conhecimento. O seu papel não é o de encetar um combate e comprometer nele a doutrina, mas sim de fazer o juízo que têm o direito de emitir se possuem mesmo os princípios que devem inspirá-los infalivelmente. O domínio da luta é o da ação, ou seja, o domínio individual e temporal; o “motor imóvel” produz e dirige o movimento sem ser arrastado por ele. O conhecimento ilumina a ação sem participar nas suas vicissitudes, o espiritual guia o temporal sem se misturar nele, e, assim, cada coisa permanece na sua ordem, no lugar que lhe compete na hierarquia universal. Mas, no Mundo Moderno, onde se pode encontrar ainda a noção de uma verdadeira hierarquia? Já nada nem ninguém se encontra no lugar onde devia normalmente estar; os homens já não reconhecem nenhuma autoridade efetiva na ordem espiritual, nenhum poder legítimo na ordem temporal. Os “profanos” permitem-se discutir as coisas sagradas, contestar-lhe esse caráter e até a própria existência; é o inferior que julga o superior, a ignorância que impõe limites à sabedoria, o erro que ultrapassa a verdade, o humano que toma o lugar do divino, a Terra que toma a dianteira ao Céu, o indivíduo que se faz medida de todas as coisas e pretende ditar ao Universo leis tiradas inteiramente da sua própria razão relativa e falível. “Ai de vós, guias cegos”, diz-se no Evangelho; hoje, efetivamente, só se vêem por toda a parte cegos que conduzem outros cegos e que, se não forem detidos a tempo, os conduzirão fatalmente ao abismo, onde cairão com eles.[...]“

“[...]desprezou-se a natureza dos indivíduos antes de se chegar a ponto de não fazer qualquer caso dela. Mais tarde, no entanto, ela foi erigida pelos modernos em pseudo-princípio sob nome de “igualdade”. Seria muito fácil mostrar que a igualdade não pode existir em lugar nenhum, pela simples razão de que não poderia haver dois seres que fossem ao mesmo tempo realmente distintos e inteiramente semelhantes entre si sob todos os aspectos. Seria fácil também salientar todas as conseqüências absurdas que decorrem dessa idéia quimérica, em nome da qual se pretende impor por toda parte uma completa uniformidade, por exemplo distribuindo a todos ensino idêntico, como se todos fossem igualmente aptos a compreender as mesmas coisas e como se para as fazer compreender os mesmos métodos conviessem a todos indistintamente. Pode-se, aliás, perguntar se não se trata mais de “aprender” do que de “compreender” realmente, ou seja, se a memória não é substituta da inteligência na concepção inteiramente verbal e “livresca” do ensino atual, em que se visa apenas a acumulação de noções rudimentares e heteróclitas, e em que a qualidade é inteiramente sacrificada à quantidade, tal como se produz por toda a parte, no Mundo Moderno, por razões que explicarei mais completamente a seguir: é sempre a dispersão na multiplicidade.[...]“

“[...]Se a competência dos “especialistas” é muitas vezes ilusória e, em todo o caso, limitada a um domínio muito estreito, a crença nessa competência é, todavia, um fato e podemos perguntar como é possível que essa crença não desempenhe qualquer papel quando se trata da carreira dos homens políticos, em que a incompetência mais completa raramente é obstáculo. No entanto, se refletimos nesse fato percebemos facilmente que não há nisso nada de que nos devamos espantar, pois trata-se, em suma, apenas do resultado muito natural da concepção “democrática”, em virtude da qual o poder vem de baixo e apóia-se essencialmente sobre a maioria, o que tem necessariamente por corolário a exclusão de toda verdadeira competência, porque a competência é sempre uma superioridade pelo menos relativa e só pode ser o apanágio de uma minoria.[...]“

“[...]Se se define a “democracia” como o governo do povo por si mesmo, trata-se de uma verdadeira impossibilidade, uma coisa que nem mesmo pode ter simples existência de fato, e não mais na nossa época do que em qualquer outra. Não devemos nos deixar enganar pelas palavras, e é contraditório admitir que os mesmos homens possam ser simultaneamente governantes e governados, visto que, para utilizar a linguagem aristotélica, um mesmo ser não pode ser “em ato” e “em potência” ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Há uma relação que supõe necessariamente dois termos em presença; não poderia haver governados se não houvesse também governantes, ainda que ilegítimos e sem outro direito ao poder que aquele que atribuíram a si mesmos; mas a grande habilidade dos dirigentes, no Mundo Moderno, é a de fazer crer ao povo que ele se governa a si próprio. E o povo deixa-se persuadir de boa vontade, tanto mais porque se sente lisonjeado com isso e é incapaz de refletir bastante para ver o que há aí de impossível.

“[...]é a opinião da maioria que supostamente faz a lei, mas falta perceber que a opinião é algo que se pode facilmente dirigir e modificar. Pode-se sempre, com o auxílio de sugestões apropriadas, provocar nela correntes dirigidas neste ou naquele sentido determinado; já não me lembro quem falou em “fabricar a opinião” e esta expressão é completamente justa, embora se deva dizer que não são sempre os dirigentes visíveis que têm realmente à sua disposição os meios necessários para obter esse resultado. Esta última observação dá-nos certamente a razão pela qual a incompetência dos políticos mais destacados parece ter apenas uma importância muito relativa; mas como não se trata aqui de desmontar as engrenagens do que se poderia chamar de “máquina governativa”, limito-me a assinalar que essa mesma incompetência oferece a vantagem de manter a ilusão que acabo de mencionar: é somente nessas condições, efetivamente, que os políticos em questão podem aparecer como a emanação da maioria, sendo assim feitos à sua imagem, porque a maioria, seja qual for o assunto acerca do qual for chamada a dar a sua opinião, é sempre constituída pelos incompetentes, cujo número é incomparavelmente maior do que o dos homens que são capazes de se pronunciar com perfeito conhecimento de causa.[...]“

“[...] Pode-se fazer intervir, a este respeito, certas observações de “psicologia coletiva” e lembrar notadamente o fato bastante conhecido de que, numa multidão, o conjunto das reações mentais que se produzem entre os indivíduos que a compõem leva à formação de uma espécie de resultante que não está nem sequer no nível da média, mas no nível dos elementos mais inferiores.[...]“

“[...]Haveria aqui lugar para fazer notar, por outro lado, como certos filósofos modernos quiseram transportar para a ordem intelectual a teoria “democrática” que faz prevalecer a opinião da maioria, fazendo do que chamam de “consenso universal” um pretenso “critério da verdade”. Mesmo supondo que haja efetivamente uma questão acerca da qual todos os homens estejam de acordo, esse acordo não provaria nada em si mesmo; mas, além disso, se essa unanimidade existisse realmente, o que é tanto mais duvidoso quanto há sempre muitos homens que não têm nenhuma opinião sobre qualquer questão e que nunca a definiram, seria em todo caso impossível verificá-la de fato, pelo que, o que se invoca a favor de uma opinião e como sinal da sua verdade reduz-se a ser apenas o consentimento do maior número, e ainda restringindo-se a um meio forçosamente muito limitado no espaço e no tempo. Neste domínio aparece ainda mais claramente que a teoria carece de bases, porque é mais fácil subtrair-se à influência do sentimento que, pelo contrário, entra em jogo quase inevitavelmente quanto se trata do domínio político, e essa influência é um dos principais obstáculos à compreensão de certas coisas, mesmo entre aqueles que teriam capacidade intelectual largamente suficiente para alcançar sem dificuldade essa compreensão. Os impulsos emotivos impedem a reflexão, e uma das mais vulgares habilidades da política é a que consiste em tirar partido dessa incompatibilidade.[...]“

“[...]A multiplicidade vista fora do seu princípio, e que desse modo não pode mais ser remetida à unidade, é, na ordem social, a coletividade concebida como sendo simplesmente a soma aritmética dos indivíduos que a compõem, e que com efeito é apenas isso mesmo, quando não se encontra ligada a qualquer princípio superior aos indivíduos. E a lei da coletividade, sob este aspecto, é bem essa lei do maior número sobre a qual se funda a idéia “democrática”.[...]“

“[...]Dito isto, devo ainda insistir numa conseqüência imediata da idéia “democrática“, que é a negação da elite entendida na sua única acepção legítima; não é propriamente “por acaso” que “democracia” se opõe a “aristocracia”, esta última palavra designando precisamente, pelo menos quando é tomada no seu sentido etimológico, o poder da elite. A elite, de qualquer modo, por definição só pode ser um pequeno número, e o seu poder, ou antes, a sua autoridade, que vem apenas da sua superioridade intelectual, nada tem em comum com a força numérica sobre a qual repousa a “democracia”, cujo caráter essencial é o de sacrificar a minoria à maioria, e também por isso mesmo, como dizíamos mais acima, a qualidade à quantidade, e, portanto, a elite à massa. Assim, o papel diretor de uma verdadeira elite e a sua própria existência, porque ela desempenha forçosamente esse papel desde que exista, são radicalmente incompatíveis com a “democracia”, que está inteiramente ligada à concepção “igualitária”, quer dizer, à negação de toda a hierarquia. O próprio fundo da idéia “democrática” é o de que qualquer indivíduo vale tanto como outro porque são iguais numericamente, e embora só o possam ser numericamente.[...]“

“[...]Uma autêntica elite, como já disse, só pode ser intelectual; é por isso que a “democracia” apenas se pode instaurar onde a pura intelectualidade já não existe, o que é efetivamente o caso do Mundo Moderno. Somente, como a igualdade é impossível de fato, e como não se podem suprimir praticamente todas as diferenças entre os homens, apesar de todos os esforços de nivelamento, chega-se, por um curioso ilogismo, a ponto de inventar falsas elites, aliás, múltiplas, que pretendem substituir a única elite real. Essas falsas elites são baseadas na consideração de quaisquer superioridades, eminentemente relativas e contingentes, e sempre de ordem puramente material. Podemo-nos aperceber facilmente disso notando que a distinção social que mais conta no atual estado de coisas é a que se baseia na fortuna, isto é, sobre uma superioridade toda ela exterior e de ordem exclusivamente quantitativa – a única, em suma, que é conciliável com a “democracia”, porque procede do mesmo ponto de vista.[...]“

“[...]Parece-me que estas curtas reflexões são suficientes para caracterizar o estado social do mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, para mostrar que nesse domínio, como em todos os outros, só há um único meio de sair do caos: a restauração da intelectualidade e, por conseqüência, a reconstituição de uma elite que atualmente deve ser encarada como inexistente no Ocidente, porque não se pode dar esse nome a alguns elementos isolados e sem coesão que representam apenas, de certo modo, possibilidades não desenvolvidas. Com efeito, esses elementos, em geral, têm apenas tendências ou aspirações, que os levam sem dúvida a reagir contra o espírito moderno, mas sem que a sua influência se possa exercer de maneira efetiva. O que lhes falta é o verdadeiro conhecimento, são os dados tradicionais que não se improvisam, e que uma inteligência entregue a si própria, sobretudo em circunstâncias tão desfavoráveis em todos os aspectos, não pode substituir senão muito imperfeitamente e em fraca medida. Não há, então, senão esforços dispersos e que muitas vezes se perdem por falta de princípios e de direção doutrinal; poder-se-ia dizer que o Mundo Moderno se defende pela sua própria dispersão, à qual os seus próprios adversários não conseguem subtrair-se. Será assim enquanto estes se mantiverem no terreno“profano”, em que o espírito moderno tem vantagem evidente, visto que é esse o seu campo próprio e exclusivo. Aliás, se eles se mantêm aí é porque esse espírito tem ainda sobre eles, apesar de tudo, forte domínio. É por isso que tantas pessoas, embora animadas de incontestável boa vontade, são incapazes de compreender que se deve necessariamente começar pelos princípios, e obstinam- se em gastar as suas forças neste ou naquele domínio relativo, social ou de outro tipo, embora nada de real ou de duradouro possa ser feito nessas condições. A verdadeira elite, pelo contrário, não teria que intervir diretamente nesses domínios nem que se misturar com a ação exterior; ela dirigiria tudo por uma influência inapreensível para o homem comum e tanto mais profunda quanto menos visível fosse. Se pensarmos no poder das sugestões de que falei há pouco, e que, no entanto, não supõem qualquer verdadeira intelectualidade, podemos suspeitar o que seria, com muito mais razão, o poder de uma influência como essa, exercendo-se de maneira ainda mais escondida em virtude da sua própria natureza, e buscando a sua origem na intelectualidade pura. Um poder que, aliás, em lugar de ser diminuído pela divisão inerente à multiplicidade e pela fraqueza que comporta tudo o que é mentira ou ilusão, seria, pelo contrário, intensificado pela concentração na unidade principal e identificar-se-ia com a própria força na verdade.[...]“

Abaixo, alguns trechos isolados do livro “La Crise du Monde Moderne“, do metafísico francês René Guénon. O livro é de 1927, e isso deve ser levado em conta quando se analiza alguns pontos de seus escritos; mas, de modo geral, o que ele disse é bem apropriado para nossa geração.

O livro não é uma crítica ao ocidente de modo geral, até porque isso seria absurdo. Mas uma crítica ao ocidente moderno, negador de valores, que de fato apresenta uma civilização anormal, tendo em vista as outras civilizações que predominaram em todos os tempos e  em todos os lugares(inclusive no próprio ocidente). Movimentos céticos, materialistas, relativistas, etc. não são novidade, mas antes eram fenômenos mais ou menos temporários, nunca atingindo as proporções que atingiram no ocidente moderno.  Em milênios de registro histórico, a civilização ocidental moderna é uma excessão isolada.

Provavelmente criarei outro “post” brevemente, com novos trechos desta obra.

“[...]O que se designa por Renascimento foi, na realidade, como eu já disse noutras ocasiões, a morte de muitas coisas; sob pretexto de voltar à civilização greco-romana, só se tomou o que esta tinha de mais exterior, porque apenas isso se tinha podido exprimir claramente nos textos escritos; e essa incompleta restituição apenas poderia ter um caráter muito artificial, visto que se tratava de formas que desde há séculos tinham cessado de viver a sua vida autêntica. Quanto às ciências tradicionais da Idade Média, após algumas derradeiras manifestações nessa época, desapareceram totalmente, tal como as das longínquas civilizações que foram outrora aniquiladas por algum cataclismo; e dessa vez nada viria substituí-las. A partir daí, só houve a Filosofia e a ciência “profanas”, ou seja, a negação da verdadeira intelectualidade, a limitação do conhecimento à ordem mais inferior, o estudo empírico e analítico de fatos que não se encontram ligados a qualquer princípio, a dispersão numa multiplicidade indefinida de detalhes insignificantes, a acumulação de hipóteses sem fundamento, que se destroem incessantemente umas às outras, e de visões fragmentárias que a nada podem conduzir, salvo a aplicações práticas que constituem a única superioridade efetiva da civilização moderna; superioridade, aliás, pouco invejável, e que, desenvolvendo-se até abafar qualquer outra preocupação, deu a esta civilização o caráter puramente material que faz dela uma verdadeira monstruosidade[...]“

“[...]Considerando tudo o que está inteiramente perdido no Ocidente, conviria fazer apelo às tradições que se conservam integralmente, como indiquei há pouco, e efetuar a seguir um trabalho de adaptação que somente poderia ser feito por uma elite intelectual fortemente constituída.
Tudo isto eu já havia dito; mas convém insistir ainda nestes pontos, porque muitas ilusões inconsistentes circulam agora livremente, e também porque é preciso compreender que, se as tradições orientais, nas suas formas próprias, podem certamente ser assimiladas por uma elite que, por definição, deve estar de certo modo para além de todas as formas, elas certamente nunca poderão ser assimiladas, a menos que haja transformações não previstas, pela generalidade dos ocidentais, para quem não foram feitas. Se uma elite ocidental chegar a constituir-se, será indispensável, pela razão que acabei de indicar, que adquirira verdadeiro conhecimento das doutrinas orientais, para cumprir a sua função; mas aqueles que tiverem apenas que recolher o fruto do seu trabalho, e que serão o maior número, poderão muito bem não ter qualquer consciência destas coisas. A influência que receberem, por assim dizer sem se darem conta, e através de meios que lhes hão de escapar inteiramente, não será por isso menos real nem menos eficaz. [...]“

“[...]É manifesto que a aptidão à contemplação está mais espalhada e mais geralmente desenvolvida entre os orientais; não há provavelmente nenhum país onde o esteja tanto como na Índia, e é por isso que esse país é considerado o representante por excelência do que chamamos o espírito oriental. De outro lado, é incontestável que, de modo geral, a aptidão para a ação, ou a tendência que resulta dessa aptidão, é a que predomina entre os povos ocidentais, no que diz respeito à grande maioria dos indivíduos. Mesmo se essa tendência não estivesse exagerada e desviada como o está atualmente, pelo menos subsistiria, de modo que a contemplação nunca poderia ser senão o caso de uma elite muito mais restrita; é por esse motivo que se diz muitas vezes, na Índia, que se o Ocidente votasse a um estado normal e possuísse uma organização social regular, certamente se encontrariam muitos “kshatryias” mas poucos “Brâmanes”. Todavia, isso seria o bastante para que tudo reentrasse na ordem, se a elite intelectual estivesse efetivamente constituída e se a sua supremacia fosse reconhecida, porque o poder espiritual não é de modo nenhum baseado sobre o número, cuja lei é a da matéria. Além disso, note-se bem que na Antiguidade, e sobretudo na Idade Média, a disposição natural para a ação, existente entre os ocidentais, não os impedia de reconhecer a superioridade da contemplação, ou seja, da inteligência pura.

Por que é que não acontece o mesmo na época moderna? Será porque os ocidentais, desenvolvendo desmedidamente as suas faculdades de ação, chegaram a ponto de perder a sua intelectualidade, e, para se consolar, inventaram teorias que situam a ação acima de tudo, chegando mesmo, com o “pragmatismo”, a negar que exista o que quer que seja de válido fora dela, ou, pelo contrário, foi esta maneira de ver que, tendo inicialmente prevalecido, conduziu à atrofia intelectual que hoje constatamos? Nas duas hipóteses, e também no caso bastante provável de que a verdade se encontre numa combinação de uma e outra, os resultados são exatamente os mesmos: as coisas chegaram a tal ponto que é tempo de reagir. É aqui, direi mais uma vez, que o Oriente pode vir em auxílio do Ocidente, se este realmente o desejar, não para lhe impor concepções que lhe são estranhas, como alguns pareceram recear, mas sim para o ajudar a reencontrar a sua própria tradição, cujo sentido ele perdeu.[...]“

“[...]Antes de ir ao fundo da questão, notemos ainda que, enquanto o espírito
que se manteve no Oriente é verdadeiramente de todos os tempos, tal como eu disse mais atrás, o outro espírito só apareceu numa época muito recente, o que, além de qualquer outra consideração, já pode fazer pensar que existe qualquer coisa de anormal. Esta impressão é confirmada pelo próprio exagero em que o espírito ocidental moderno cai, seguindo a tendência que lhe é própria: não contente em proclamar em todas as ocasiões a superioridade da ação, chegou a ponto de a tornar sua preocupação exclusiva e de negar todo o valor à contemplação, cuja verdadeira natureza, aliás, ignora ou desconhece inteiramente. Pelo contrário, as doutrinas orientais, sempre afirmando tão claramente quanto possível a superioridade e mesmo a transcendência da contemplação em relação à ação, não deixam de conceder a esta o seu lugar legítimo e reconhecem toda a sua importância na ordem das contingências humanas [...]“

“[...]Só o conhecimento permite sair desse Mundo e das limitações que lhe são inerentes e, quando ele alcança o imutável, o que é o caso do conhecimento principal ou metafísico, que é o conhecimento por excelência, possui ele próprio a imutabilidade, porque todo o conhecimento verdadeiro é essencialmente identificação com o seu objeto. É justamente isso que ignoram os ocidentais modernos que, em matéria de conhecimento, não vêem mais do que o conhecimento racional e discursivo, portanto indireto e imperfeito: o que se poderia chamar de conhecimento por reflexo. E ainda, além disso, apreciam cada vez mais esse conhecimento inferior na medida em que ele pode servir imediatamente para fins práticos; comprometidos na ação a ponto de negar tudo o que a ultrapassa, não percebem que essa ação degenera, assim, por defeito de princípio, numa agitação tão vã como estéril. É realmente esse o caráter mais visível da época moderna: necessidade de agitação incessante, de contínua mudança, de velocidade sempre crescente, como aquela em que se desenrolam os próprios acontecimentos. É a dispersão na multiplicidade, e numa multiplicidade que já não está unificada pela consciência de qualquer princípio superior. Na vida corrente, assim como nos conceitos científicos, é a análise levada ao extremo, a divisão indefinida, uma verdadeira desagregação da atividade humana em todas as ordens em que se exerça; e daí a inaptidão para a síntese, a impossibilidade de qualquer concentração, tão surpreendente aos olhos dos orientais. Essas são as conseqüências naturais e inevitáveis de uma materialização cada vez mais acentuada, porque a matéria é essencialmente multiplicidade e divisão, e é por isso, digamos de passagem, que tudo o que dela procede só pode engendrar lutas e conflitos de todas as espécies, tanto entre os povos como entre os indivíduos. Quanto mais nos afundamos na matéria, mais os elementos de divisão e de oposição se acentuam e se ampliam; inversamente, quanto mais nos elevamos em direção à espiritualidade pura, tanto mais nos aproximamos da unidade, que só pode ser plenamente realizada pela consciência dos princípios universais.[...]“

“[...]a mesma coisa se produz também na ordem científica: é a pesquisa pela pesquisa, muito mais do que pelos resultados parciais e fragmentários aos quais conduz; é a sucessão cada vez mais rápida de teorias e de hipóteses sem fundamento, que, mal se levantam, desmoronam-se para serem substituídas por outras que durarão ainda menos. É um verdadeiro caos no meio do qual seria inútil procurar alguns elementos definitivamente adquiridos, se não for mesmo uma monstruosa acumulação de fatos e pormenores que nada podem provar ou significar. Refiro-me, bem entendido, ao ponto de vista especulativo, na medida em que ele ainda subsiste; pelo que diz respeito a aplicações práticas, há, pelo contrário, resultados incontestáveis. Isso é fácil de compreender, visto que essas aplicações referem-se imediatamente ao domínio material, e que este domínio é precisamente o único em que o homem moderno pode gabar-se de uma superioridade real.[...]“

“[...]Em todo o caso, temos geralmente a impressão de que não existe, no estado atual, nenhuma estabilidade; mas enquanto alguns sentem o perigo e tentam reagir, a maior parte dos nossos contemporâneos deleita-se com esta desordem em que vêem uma espécie de imagem exteriorizada da sua própria mentalidade. Existe, efetivamente, uma exata correspondência entre um mundo em que tudo parece estar em puro “devir”, em que não existe mais nenhum lugar para o imutável e para o permanente, e o estado de espírito dos homens que entendem que toda a realidade consiste neste mesmo “devir”, o que implica a negação do verdadeiro conhecimento, isto é, dos princípios transcendentes e universais. Podemos mesmo ir mais longe: é a negação de todo o conhecimento real, em qualquer ordem que seja, mesmo no relativo, visto que, como indiquei mais atrás, o relativo é ininteligível e impossível sem o absoluto, o contingente sem o necessário, a mudança sem o imutável, a multiplicidade sem a unidade.[...]“

“[...]Minha vida não deverá ser tão longa quanto a do primeiro Tirthankara., o senhor Rsabha; deverei viver apenas cem anos. Dezesseis de minha vida já se foram em jogos infantis e, quando completar os trinta, ingressarei na Ordem. Por que então deveria casar-me por um período tão curto, esperando conhecer alguns prazeres, que, afinal, são todos imperfeitos?” “[...]Por muitos anos desfrutei o estado de Indra; mesmo assim o desejo de prazer não foi aplacado. De que servem umas poucas gotas de água terrena para quem não se satisfez com um oceano de ambrósia? O desejo de prazer só é aumentado pelo gozo, assim como a virulência do fogo o é pela adição de combustível. Os prazeres são, sem dúvida, agradáveis momentaneamente, mas suas consequências são maléficas, pois para satisfazer os apetites dos sentidos somos forçados a entrar nos reinos das dores, desconsiderando os mandamentos morais e nos entregando aos piores vícios[...]“

[Pārśvanātha(पार्श्वनाथ), vigésimo terceiro "Tirthankara" jaina.]

Trecho retirado do livro Filosofias da Índia, compilação feita por Joseph Campbell dos escritos de Heinrich Zimmer, Editora Palas Athena.

O Jainismo é uma religião heterodoxa da Índia, que tem em sua doutrina o conceito de uma “mônada vital” fixa que passa por várias existências. Esse conceito é estranho ao budismo e à ortodoxia hindu e semelhante ao conceito de “alma reencarnante” das seitas “new age” do mundo contemporâneo. Como meu pensamento hoje em dia se coaduna com o da ortodoxia hindu e budista, não acredito em “alma imortal”(inclusive a associação dessas duas palavras me soa meio absurda), reencarnação e coisas do gênero. Mesmo assim a vida de Parshva é muito bela e admirável. Em sua última existência[como o vigésimo terceiro Tirthankara], ele atinge a iluminação e sua “mônada vital” é purificada de todo o Karma(que no jainismo é uma espécie de matéria sutil que se agrega à monada, obscurecendo-a), tornando-se transparente e sem peso, subindo assim até o nível mais alto do cosmos, onde não experimenta mais nenhuma limitação. A estrutura do cosmos jaina lembra “O Homem Cósmico” Swedenborgiano. É um cosmos antropomorfizado, como o que o místico cristão(Swedenborg) descreve. A “mônada vital” de Parshva experimentava o estado de Indra(rei dos deuses) antes de nascer na terra como o vigésimo terceiro Tirthankara(existência esta na qual ela atingiu a iluminação jaina). Já  o  vigésimo quarto Tirthankara(o último até hoje, que viria vários anos depois de Parshva), chamado Mahavira, viveu na mesma época do Buddha, foi seu contemporâneo[e há referências dele nos Suttas Budistas].

Abaixo, trechos extraídos do livro “Silogismos da Amargura“, de Emil Cioran. São alguns dos meus favoritos. Ainda há outros de que gosto muito, mas os postarei depois, para que os posts não fiquem imensos. Cioran destila seu veneno contra ateus, religiosos, contra todo mundo. Por incrível que pareça, apesar de tudo o que escreve, Cioran não era ateu. Tinha um senso de transcendência e leu muito os místicos cristãos. Também leu muito sobre budismo, chegando a se considerar budista durante um certo tempo(mas logo viu que na verdade se enganava, pois não tinha temperamento para tal).

Mestre dos pessimistas, céticos, materialistas e ateus, Cioran foi um dos responsáveis pela minha “abertura” à espiritualidade, pois ele falava na minha língua. Eu posso dizer, sem sombra de dúvida, que me converti pela boca dos demônios e não pela dos apologetas. E um desses demônios foi Cioran, embora haja muitos outros. A minha conversão só se tornou possível depois de um mergulho profundo nas profundezas do inferno, do ceticismo extremo, do absurdo total, do desespero, do non-sense, do surreal, das especulações diabólicas. Eu tive de me afastar, de ir para longe, e só lá, no fundo do abimo, eu pude olhar novamente para cima e finalmente ver a brecha de luz; e, assim,  pude fazer o caminho inverso. Apesar disso, meu caminho não foi o da fé, e sim o da razão. Como Pedro Abelardo, meu lema é “intelligo ut credam“, ao invés de “credo ut intelligam“. Morreria, mas nunca me converteria devido a necessidades de ordem sentimental. Ao contrário, na época, sentimentalmente eu até preferia a idéia dos ateus, a idéia da aniquilação. Só depois descobri que a aniquilação era uma impossibilidade lógica, entendido o que de fato é o ser[e o ser não é a alma, a alma não é imortal].

Para quem se interessar, recomendo estes links:

1) Biografia de Cioran no Speculum.

2) Última entrevista de Emil Cioran – Filosofia Irritada.

3) Outras Citações de Cioran – essas retiradas de vários livros dele.

Vamos agora, depois dessas delongas, a algumas das citações que eu escolhi do livro “Silogismos da Amargura“[em alguns silogismos, eu resolvi intervir e comentar - os meus comentários estão em cor-de-abóbora] . Os silogismos são bem pessimistas, mas muito legais[algumas são premonitórias]. Muitos deles não representam meu pensamento, obviamente:

Se a fé, a política ou a violência diminuem o desespero, tudo deixa intacta a melancolia: ela só poderia cessar com o nosso sangue.

O Oriente se interessou pelas flores e pela renúncia. Nós lhe opomos as máquinas e o esforço, e esta melancolia galopante – último sobressalto do Ocidente.

Nascemos com tal capacidade de admirar que outros dez planetas não poderiam esgotá-la; a Terra o consegue automaticamente.

Quanto mais indiferente me são as pessoas, mais me perturbam; e quanto mais as desprezo, menos posso aproximar-me delas sem gaguejar.

O que me dá a ilusão de jamais ter sido um iludido é que nunca amei nada sem ao mesmo tempo odiá-lo.

A possibilidade de renovar-se através da heresia confere ao crente uma nítida superioridade sobre o ateu.

Perdi em contato com os homens todo o frescor de minhas neuroses.

Mais que uma reação de defesa, a timidez é uma técnica, aperfeiçoada sem cessar pela megalomania dos incompreendidos.

Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer?

Apaixonado pelo Abismo e furioso de não poder escapar dele, o descrente manifesta um ardor místico para construir um mundo tão desprovido de profundidade como um balé de Rameau.

Quanto mais alguém corre perigos, mais sente a necessidade de parecer superficial, de aparentar frivolidade, de multiplicar os mal-entendidos sobre si mesmo.

Mais ainda que a religião, o cinismo comete o erro de atribuir demasiada importância ao homem.

Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo.

A carne é incompatível com a caridade: um orgasmo transformaria um santo em lobo.

Ser um Raskolnikov – sem a desculpa do homicídio.

Apenas adolescente, a perspectiva da morte me horrorizava; para fugir dela corria ao bordel ou invocava os anjos. Mas, com a idade, nos habituamos a nossos próprios terrores, não fazemos mais nada para nos livrar deles, nos aburguesamos no Abismo. E se houve um tempo em que invejava esses monges do Egito que cavavam suas tumbas para chorar sobre elas, se cavasse agora a minha seria apenas para jogar pontas de cigarro.

Só vivo porque posso morrer quando quiser; sem a idéia do suicídio já teria me matado há muito tempo.

Sem deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo.

O desejo de morrer foi minha única preocupação; renunciei a tudo por ele, até a morte.

Mal um animal se transtorna, começa a parecer-se com o homem. Observe um cão furioso ou abúlico: parece que espera seu romancista ou seu poeta.

A lisonja transforma uma pessoa de caráter em uma marionete. E, em um instante, sob a influencia de sua doçura, os olhos mais vivos adquirem uma expressão bovina. Insinuando-se mais fundo que a doença, e alterando, ao mesmo tempo, as glându1as, as entranhas e o espírito, ela é a única arma de que dispomos para dominar os nossos semelhantes, para desmoralizá-los e corrompê-los.

No pessimista se combinam uma bondade ineficaz e uma maldade insatisfeita.

Quando se é devorado por um apetite de sofrer tal que, para acabar com ele, necessitaríamos de milhares de existências, imaginamos bem de que inferno deve ter surgido a idéia de transmigração.*1

1*Na verdade, estou certo de que Cioran, acima, quis dizer “reencarnação” e não “transmigração”, mas confundiu os dois termos, o que é muito comum entre os ocidentais. São coisas totalmente diferentes, embora o dicionário não os distingua.

O grande crime da Dor é haver organizado o Caos, havê-lo convertido em universo.

Para recuperar a sua autoridade sobre os indivíduos, o catolicismo necessita de um papa enfurecido, corroído por contradições, distribuidor de histeria, dominado por uma raiva de herege, um bárbaro a quem não perturbariam dois mil anos de teologia.
Em Roma e no resto da cristandade já se esgotaram completamente as reservas de demência? Desde o final do século XVI, a Igreja, humanizada, só produz cismas de segunda categoria, santos vulgares, excomunhões irrisórias. E se um louco não consegue salvá-la, ao menos poderia precipitá-la em outro abismo.

Duas vias se oferecem ao homem e à mulher: a ferocidade ou a indiferença. Tudo indica Que tomarão a segunda, que entre eles não haverá nem ajuste de contas nem ruptura, mas que continuarão se afastando um do outro, que a pederastia e o onanismo, propostos nas escolas e nos templos, alcançarão as massas, que um monte de vícios abolidos serão de novo vigentes, e que procedimentos centíficos substituirão o rendimento do espasmo e a maldição do casal.

Concentrado no drama das glândulas, atento às confidências das mucosas, o Nojo nos transforma em fisiologistas.

Sobre um planeta que compõe seu epitáfio, tenhamos a dignidade suficiente para nos comportar como cadáveres amáveis.

Com certezas, o estilo é impossível: a preocupação com a expressão é própria dos que não podem adormecer em uma fé. Por falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras — sombras de realidade —, enquanto os outros, seguros de suas convicções, desprezam sua aparência e descansam comodamente no conforto da improvisação.

Os românticos foram os últimos especialistas do suicídio. Desde então se improvisa…Para melhorar sua qualidade precisamos de um novo mal do século.

Estando na moda a derrota, é natural que Deus se aproveite disso. Graças aos esnobes que o lastimam ou o maltratam, ainda goza de certa reputação. Mas durante quanto tempo será ainda interessante?

Se a História tivesse uma finalidade, como seria lamentável o destino daqueles que, como nós, nada fizeram da vida. Mas no meio do absurdo geral, nos erguemos triunfantes, nulidades ineficazes, canalhas orgulhosos de haver tido razão.

Por que desfazer-se de Deus para refugiar-se em si mesmo? Por que essa substituição de cadáveres?

Que lástima que para chegar a Deus tenha que se passar pela fé!*2

2*Para acreditar em um “deus pessoal”, eu até concordo que a fé seja componente essencial. Para acreditar na concepção ortodoxa do “deus hindu”, por exemplo, a fé é acessória e até dispensável.

A vida, esse mau gosto da matéria.

Refutação do suicídio: não é deselegante abandonar um mundo que com tão boa vontade se pôs a serviço de nossa tristeza?

Quem nunca contradisse seus instintos, quem nunca se impôs um longo período de ascese sexual ou desconheça por completo as depravações da abstinência, será completamente alheio tanto à linguagem do crime como a do êxtase; jamais compreenderá as obsessões do marquês de Sade ou as de São João da Cruz.

Tanto cortejei a idéia de fatalidade, à custa de tão grandes sacrifícios alimentei-a, que acabou por encarnar-se: da abstração que era, palpita agora na minha frente, e me esmaga com toda a vida que lhe dei.

Só conhecendo, em matéria de experiência religiosa, as inquietudes da erudição, os modernos avaliam o Absoluto, estudam suas variedades e reservam seus estremecimentos para os mitos — essas vertigens para consciências historiadoras. Havendo deixado de rezar, comentam a prece. Nenhuma exclamação mais, só teorias. A Religião boicota a fé. No passado, com amor ou ódio, Os homens se aventuravam em Deus, o qual, de Nada inesgotável que era, agora é apenas – para desespero de místicos e ateus — um problema.*3

Toda crença nos torna insolentes; recém-adquirida, aviva-nos osmaus instintos; os que não a partilham consideramos fracassados e incapazes, merecedores apenas de nossa piedade e desprezo. Observe o neófito em política e sobretudo em religião, todos aqueles que conseguiram misturar Deus a suas tramóias. Os convertidos, os novos-ricos do Absoluto. Compare sua impertinência com a modéstia e as boas maneiras dos que estão perdendo a fé e as convicções…*4

3 e 4* Em parte ele está certíssimo. Não acho que o estudo em si seja um problema. Mas o é quando o estudante esquece da espiritualidade e permanece exclusivamente no domínio do discurso(muitos até se tornam arrogantes e acabam transmitindo uma imagem negativa e errada aos outros, a respeito da vida espiritual – e isso acontece muito, muito mesmo. Essas pessoas acabam sendo muito mais danosas que os ateus e materialistas, muito mais).

Sem Bach, a teologia seria desprovida de objeto, a Criação fictícia, o nada peremptório.
Se há alguém que deve tudo a Bach esse alguém é Deus.

Quanto mais convivemos com os homens, mais nossos pensamentos se obscurecem; e quando, para aclará-los, voltamos à solidão, encontramos nela a sombra que eles projetaram.

Formados na escola dos veleidosos, idólatras do fragmento e do estigma, pertencemos a um tempo clínico em que só importam os casos. Só nos interessa o que um escritor calou, o que poderia ter dito, suas profundidades mudas. Se deixa uma obra, se explica, assegura nosso esquecimento. Magia do artista irrealizado…, de um vencido que desperdiça suas decepções, que não sabe fazê-las frutificar.

Um livro que, após haver demolido tudo, não se destrói a si mesmo, exasperou-nos em vão.

O que faz o sábio? Resigna-se a ver, a comer etc…, aceita a despeito de si mesmo essa “chaga de nove aberturas” que é o corpo segundo a Bhagavad-Gita. A sabedoria? Sofrer dignamente a humilhação que nos infligem nossos buracos.

Examinei devidamente todos os argumentos favoráveis a Deus: sua inexistência permaneceu para mim intacta. Ele possui o talento de fazer-se desmentir por toda a sua obra; seus defensores o tornam odioso; seus adoradores, suspeito. Quem tema amá-lo basta abrir São Tomás…
Recordo esse catedrático da Europa central que interrogava uma de suas alunas sobre as provas da existénda de Deus; ele lhe cita os argumentos históricos, ontológicos, etc. mas logo acrescenta que não acredita neles. O professor se irrita, repete as provas uma a uma; ela encolhe os ombros, persiste em sua incredulidade. Então o professor se levanta, roxo de fé: “Senhorita, dou-lhe a minha palavra de honra que Deus existe!”
Argumento que, sozinho, vale todas as Sumas teológicas. E o que dizer da Imortalidade? Querer elucidá-la ou simplesmente abordá-la, é sinal de aberração ou de farsa. Entretanto, nem por isso os tratados deixam de expor sua impossível fascinação. Segundo eles, basta nos fiar em algumas deduções hostis ao Tempo para achar-nos subitamente munidos de eternidade, indenes de pó, isentos de agonia.
Mas não são essas futilidades que me fizeram duvidar de minha precariedade. Em compensação, como me perturbaram as meditações de um velho amigo, músico ambulante e louco… Como todos os desequilibrados, punha-se problemas e havia “resolvido” uma quantidade. Um dia, depois de haver percorrido os cafés, veio interrogar-me sobre… a imortalidade. “E impensável”, lhe respondi, ao mesmo tempo seduzido e enojado por seus olhos inatuais, suas rugas e seus farrapos. Uma certeza o animava: “Te equivocas se não acreditas nela; se não acreditas, não sobreviverás. Estou certo de que a morte não poderá nada contra mim. Além do que, apesar do que dizes, tudo tem uma alma. Viste os pássaros esvoaçando nas ruas e de repente elevando-se por cima das casas para contemplar Paris? Como não vão ter alma?!,como um pássaro pode morrer?!”*5

5* Antes de entender melhor vários conceitos, eu li as provas de Tomás de Aquino e não as aceitei. hehehe Hoje em dia eu as leio e elas fazem um sentido muito maior para mim. Engraçado que a minha concepção de deus, aos olhos de uma pessoa comum, parece ateísmo. Na verdade eu tenho uma concepção bem oriental a respeito dessas coisas. É só ver o Budismo, por exemplo, que nem sequer fala em deus. Isso não significa que essa concepção impessoal não esteja presente. A Unidade está presente no budismo, embora para além de qualquer  concepção pessoal. É por isso que tantos ateus se tornam budistas. Na verdade, ocorre que os ateus não são tão ateus quanto acham que são. O problema é que os ateus não entedem nada de religião. No máximo, conhecem a concepção popular, periférica e simbólica do cristianismo, se muito. E a rejeitam, é claro(como eu também a rejeito). As concepções mais centrais, profundas e filosóficas são de grande valor, como as de qualquer religião. É tudo uma questão de mal-entendido. Não é preciso acreditar na imortalidade da alma, por exemplo, para ser espiritual.  Nem sequer num deus pessoal(embora não haja nada de errado em acreditar nisto: existem muitos diferentes caminhos). O Cristianismo é maravilhoso, assim como todas as outras grandes religiões. E, embora metafisicamente falando não seja tão completo como as religiões orientais, é uma religião muito adequada para  a maioria dos ocidentais contemporâneos.

Feliz no amor, Adão teria nos poupado a História.

Sempre pensei que Diógenes havia sofrido, em sua juventude, algum acidente amoroso: ningúem escolhe a via do sarcasmo sem a ajuda de uma doença venérea ou de uma mulher intratável.

Declara-se guerra às glândulas e prostra-se ante os relentos de uma mulherzinha…O que pode o orgulho contra a liturgia dos odores, contra o incenso zoológico?

Desde que Schopenhauer teve a idéia disparatada de introduzir a sexualidade na metafísica, e Freud a de substituir o equívoco picante por uma pseudociência de nossos transtornos, é admissível que qualquer um nos fale da “significação” de suas proezas, de sua timidez e de seus êxitos. Assim começam todas as confidências e acabam todas as conversas. Dentro em pouco nossas relações com os outros se reduzirão ao registro de seus orgasmos efetivos ou inventados..o destino de nossa raça, devastada pela introspecção e pela anemia: reproduzir-se através da palavra, ostentar suas noites, exagerar seus desfalecimentos e seus triunfos.*6

6*Essa é uma das premonições a que me referi.

Quando nem sequer a música é capaz de salvar-nos, um punhal brilha em nossos olhos; nada mais nos sustenta, a não ser a fascinação do crime.

Sem meios de defesa contra a música, estou obrigado a sofrer o seu despotismo e, segundo seu capricho, ser deus ou farrapo.

Desconfie dos que dão as costas ao amor, à ambição, à sociedade. Se vingarão por haver renunciado a isso.

A história das idéias é a história do rancor dos solitários.

O romantismo inglês foi uma mistura feliz de láudano, exílio e tuberculose; o romantismo alemão, de álcool, província e suicídio.

Shakespeare: encontro de uma rosa e de um machado.

Suficientemente ingênuo para colocar-me em busca da Verdade, interessei-me no passado — inutilmente — por muitas disciplinas. Começava a firmar-me no ceticismo quando tive a idéia de consultar, como último recurso, a Poesia: quem sabe, disse a mim mesmo, talvez me seja útil, talvez esconda sob sua arbitrariedade alguma revelação definitiva. Recurso ilusório: ela me fez perder até minhas incertezas.

[CONTINUA...]

Quem nada conhece, leia os dois posts anteriores antes de pôr os olhos neste.

Não obstante o que disse Cioran a respeito das provas da existência de Deus, postarei, a seguir, trechos de Tomás de Aquino comentados por Giovanni Reale e Dario Antiseri(o que está escrito na cor azul é de Aquino e o que está na cor preta é de Reale e Antiseri):

No contexto das linhas metafísicas expostas, não será difícil captar o valor das cinco provas ou caminhos através dos quais Tomás alcança a única meta, Deus, no qual tudo se unifica e adquire luz e coerência. Para Tomás, Deus é o primeiro na ordem ontológica, mas não na ordem psicológica. Mesmo sendo o fundamento de tudo, Deus deve ser alcançado por caminhos a posteriori, isto é, partindo dos efeitos e do mundo. Assim, se na ordem ontológica Deus precede suas criaturas como a causa precede os efeitos, na ordem psicológica ele vem depois das criaturas, no sentido de que é alcançado a partir da consideração do mundo, que remete ao seu autor. O ponto de partida de cada caminho, de quando em vez, é constituído por elementos extraídos da cosmologia aristotélica, que Tomás utiliza com confiança em sua eficácia persuasiva, num momento em que o aristotelismo era a filosofia hegemônica. Mas a forca probatória dos argumentos em particular é toda e sempre de índole metafísica — e assim pretende permanecer em situações científicas diversas.

a) O caminho da mutação. Escreve Tomás na Summa Theologiae: “O primeiro caminho, que é o mais evidente, é aquele que parte da mutação. Com efeito, é certo e sabido pelos sentidos que algumas coisas sofrem mutações neste mundo. Ora, tudo aquilo que muda é movido por outros, já que uma coisa não muda se não for em potência aquilo no qual se conclui a mutação, ao passo que, ao contrario, sendo em ato, move (ou seja, provoca mutação). Com efeito, mover quer dizer levar da potência ao ato. Ora, uma coisa não pode ser levada a ato senão em virtude de um ente que já seja em ato: por exemplo, aquilo que é quente em ato, como o fogo, torna quente a madeira, que é quente em potencia, e assim a muda e altera. Mas não é possível que a mesma coisa seja ao mesmo tempo ato e potencia sob o mesmo aspecto. Ela só pode sê-lo sob aspectos diversos: aquilo que é quente em ato não pode sê-lo também em potencia, mas é, ao mesmo tempo, frio em potencia. Assim, é impossível que, sob o mesmo aspecto e ao mesmo tempo, um ente seja origem e sujeito de mutação (movens et motum), ou seja, mude-se a si mesmo. Portanto, tudo aquilo que muda deve ser movido por outros.

Esse é o caminho da mudança, considerado o primeiro e mais manifesto, para chegar ao primeiro Motor. Nas outras formulações, seguindo bem de perto a Aristóteles, Tomás se detém nos diversos modos pelos quais um ente pode se mover; nesta formulação mais madura, porém, o aspecto cosmológico é secundário, emergindo com força o aspecto metafísico. O movimento é analisado como passagem da potência ao ato, passagem que não pode ser efetuada por aquilo que se move, porque, se se move, isso significa que é movido e é movido por outro, ou seja, por quem é em ato, sendo portanto capaz de operar a passagem da potência ao ato. O princípio “omne quod movetur ab alio movetur” é universal, devendo portanto ser aplicado a tudo aquilo que, de algum modo, se move. Em virtude de tal princípio, se deveria compreender como é frágil a objeção segundo a qual o mundo pode se explicar sem recorrer a Deus, porque os fatos naturais se explicariam com a natureza e as ações humanas com a razão e a vontade. Tal explicação é insuficiente porque recorre a realidades mutáveis, mas tudo aquilo que é mutável e defectível deve ser reconduzido a um princípio imutável e necessário. Mas eis uma objeção: não se poderia recorrer a uma série infinita de motores e coisas movidas? Não, porque o processo ao infinito ou circular desloca o problema e não o explica, ou seja, não encontra a razão última da mutação. Portanto, é necessário afirmar a existência de um “primum movens quod in nullo moveatur”, isto é, a existência de um imutável. E esse imutável é o que todos chamam Deus.

b) O caminho da causalidade eficiente. “O segundo caminho parte da natureza da causa eficiente. No mundo das coisas sensíveis, nos defrontamos com a existência de uma ordem de causas eficientes. Não é caso conhecido (e, na verdade, é impossível) de uma coisa que seja a causa eficiente de si mesma, porque para tanto deveria ser anterior a si mesma, o que é impossível. Ora, não é possível ir ao infinito na série das causas eficientes, porque em todas as causas eficientes ordenadas a primeira é a causa das causas intermediárias e as intermediárias são as causas das últimas, podendo as causas intermediárias ser várias ou uma só. Ora, anular a causa significa anular o efeito. Por isso, se não houver uma causa primeira entre as causas eficientes, não haverá nem causa intermediária nem causa última. Mas, se fosse possível ir ao infinito nas causas eficientes, não haveria causa eficiente primeira, nem efeito último, nem causas eficientes intermediárias, o que, evidentemente, é falso. Por isso, é necessário admitir uma causa eficiente, à qual todos dão o nome de Deus.”

À primeira vista, o argumento parece subentender o universo de esferas concêntricas que é típico do pensamento antigo. Com efeito, nessa visão, a causalidade eficiente exercida ao nível de uma das esferas se justifica pela causalidade eficiente da esfera imediatamente superior; ademais, o número de esferas intermediárias não pode ser infinito, porque, se assim fosse, não haveria a primeira causa eficiente e, conseqüentemente, não haveria causas intermediárias nem efeitos últimos, o que é falso. Entretanto, quando afirma que não importa “que as causas intermediárias sejam várias ou uma só”, Tomás dá a entender que não quer ligar a validade dessa prova à cosmologia antiga. Sua prova tem um valor metafísico, não físico. Com efeito, ele pretende achar a razão da existência da causalidade eficiente no mundo. E isso é impossível enquanto não se chega a uma causa eficiente primeira, isto é, uma causa que produz e não é produzida. O argumento, portanto, se baseia em dois elementos: por um lado, todas as causas eficientes causadas por outras causas eficientes; por outro lado, a causa eficiente incausada, que é a causa de todas as outras causas. No fundo, trata-se de responder a esta interrogação: como é possível que alguns entes sejam causas de outros entes? Indagar sobre essa possibilidade significa chegar a uma causa primeira incausada, que, se existe, identifica-se com aquele ser que chamamos Deus.

c) O caminho da contingência. “O terceiro caminho deriva da possibilidade, desenvolvendo-se da forma como exporemos. Na natureza, encontramos coisas que têm a possibilidade de ser e não ser, pois constatamos que se geram e se corrompem e, conseqüentemente, lhes é possível tanto o ser como o não ser. Mas é impossível que existam sempre, pois aquilo que pode não ser em algum tempo não o é. Por isso, se tudo pudesse não ser, em algum tempo não haveria nada de existente. Ora, se isso fosse verdade, também nesse caso não haveria nada de existente, pois aquilo que não existe só começa a existir por meio de alguma coisa que já existe. Por isso, se em algum tempo não tivesse havido nada de existente, teria sido impossível para qualquer coisa começar a existir e, assim, também nesse caso, nada existiria, o que é absurdo. Por isso, nem todos os entes são puramente possíveis, devendo necessariamente haver alguma coisa cuja existência é necessária. Mas toda coisa necessária tem a sua necessidade causada por outra — ou não. Ora, é impossível ir ao infinito nas coisas necessárias, que têm sua existência causada por alguma outra coisa, como já foi demonstrado a respeito das causas eficientes. Por isso, não podemos deixar de admitir a existência de algum ente que tenha em si mesmo a sua própria necessidade, não a recebendo de qualquer outro, mas que causa em outras coisas a sua necessidade. E a isso todos os homens chamam Deus.”

Esse argumento parte da constatação de que se as criaturas já que nascem, crescem e morrem, são contingentes e, portanto, possíveis, isto é, não possuem o ser em virtude de sua essência. Elas existem mas não necessariamente, porque também podem não ser e houve um tempo em que não eram. Assim, sendo contingentes, as criaturas são possíveis. Como exemplificar a passagem da possibilidade à existência atual e, portanto, àquele grau de ser ou necessidade que de fato possuem? Se tudo fosse possível, teria havido um tempo em que nada teria existido e agora nada existiria. Se quisermos explicar a existência atual dos entes, isto é, a passagem do estado possível ao estado atual, é preciso admitir urna causa que não foi e não é de modo algum contingente ou possível, porque é sempre em ato. E essa causa se chama Deus.

d) O caminho dos graus de perfeição. “O quarto caminho diz respeito à gradação que se pode encontrar nas coisas. Entre os entes, há os mais e os menos bons, verdadeiros, nobres e semelhantes. Mas ‘mais’ ou ‘menos’ são predicados de coisas diversas, que se assemelham de modo diverso a algo que é o máximo, como se diz que uma coisa é mais quente quando mais de perto se assemelha àquilo que é quentíssimo. Dessa forma, existe algo que é verdadeiro, nobre e bom em grau máximo e, conseqüentemente, algo que, em grau máximo, é ser, já que aquilo que é máximo na verdade é máximo também no ser, como está escrito na Metafísica. Ora, o máximo em cada gênero é a causa de tudo naquele gênero: por exemplo, o fogo, que é máximo no calor, é causa de todas as coisas quentes, como está dito no mesmo livro. Por isso, deve haver algo que, para todos os entes, é a causa do seu ser, de sua bondade e de toda outra perfeição. E isso é chamado Deus.”

Também esse caminho parte da constatação empírica, metafisicamente interpretada, relativa à gradação dos entes, segundo a qual o ser é participado e expresso diversamente. Há um mais ou um menos ao nível do ser e, consequentemente — recorde-se o que já se disse a propósito dos transcendentais —, ao nível de bondade, de unidade e de verdade. Quanto mais ser um ente tiver, tanto mais é uno, verdadeiro e bom. Ora, constatada essa gradação, passa-se à explicação, afirmando que as coisas mais ou menos verdadeiras, boas etc., o são em relação a um ser absolutamente uno, verdadeiro e bom, que possui o ser de modo absoluto. Esta é a razão da passagem: se os entes têm um grau diverso de ser, isso significa que tal fato não lhes deriva em virtude de suas respectivas essências, caso em que seriam sumamente perfeitos. E, se não deriva de suas respectivas essências, isso significa que o receberam de um ser que dá sem receber, que permite a participação sem ser partícipe, porque é fonte de tudo aquilo que existe de algum modo.

e) O caminho do finalismo. “O quinto caminho deriva do governo do mundo. Nós podemos ver que as coisas que carecem de conhecimento, como os corpos naturais, agem em função de um fim. E isso é evidente pelo fato de que sempre ou quase sempre agem do mesmo modo, de forma a obter os melhores resultados. Portanto, está claro que não alcançam o seu fim por acaso, mas por intenção. Ora, tudo aquilo que não tem conhecimento não pode se mover em direção a um fim, a menos que seja dirigido por algum ente dotado de conhecimento e inteligência, como a flecha é dirigida pelo arqueiro. Por isso, existe algum ser inteligente que dirige todas as coisas naturais para o seu fim. E esse ser nós chamamos Deus.”

Também este último caminho parte da constatação de que as coisas ou algumas delas agem e operam como se tendessem para um fim. Dizendo que alguns corpos naturais agem sempre ou quase sempre do mesmo modo Tomás quer destacar duas coisas. A primeira é que ele não parte da finalidade de todo o universo (quando muito, apenas a aborda) e não pressupõe uma concepção mecanicista da natureza, na qual Deus interviria, juntando pedaços indiferentes para constituir o seu relógio. A finalidade constatada diz respeito a algumas coisas, coisas que têm em si um princípio de unidade e finalidade. E a segunda é que as exceções devidas ao acaso não reduzem a validade desse ponto de partida.

Ora, se o agir em função de um fim constitui um certo modo de ser, pergunta-se qual será a causa dessa regularidade, ordem e finalidade constatáveis em alguns entes. Tal causa não pode ser identificada com os próprios entes, visto que eles são privados de conhecimento (cognitione carent) e, nesse caso, é necessário o conhecimento do fim. Desse modo, é preciso remontar a um Ordenador, dotado de conhecimento e em condições de dar ser aos entes daquele modo específico no qual de fato eles operam.

Este é uma continuação do anterior. Recomendo fortemente que leia os textos do post anterior antes de proceder à leitura deste e que, inclusive, ouça o áudio recomendado e disponibilizado(o áudio ajudará muito o iniciante a entender melhor a citação aqui transcrita – o audio é ainda mais essencial que os artigos para que se entendam essas citações em específico, deste post).

Obs.: não concordo com tudo o que ele escreveu, mas continuemos.

E Deus? Se imaginarmos um Deus transcendente ao universo, um Deus que não fosse o próprio Universo, mas que estivesse fora dele, estaria Ele fora necessariamente e sempre, ou seria um aspecto transcendente do próprio Universo? Ora, é claro que Ele é um aspecto do Universo que não pode se reduzir a nenhuma de suas partes e que é de certa forma transcendente a si mesmo, porque inclui toda a possibilidade ainda não realizada no universo físico. Essa possibilidade existe, e ela tem de se autoconhecer. Imagine se assim não fosse: a possibilidade transcendente que desconhece a si mesma e que só nós, seres humanos, conhecemos…Logo, é claro que o Universo se conhece. A parte dele que se conhece mas que não está realizada ainda, e que talvez não se realize nunca, nós chamamos de aspectos transcendentes de Deus. Para ser transcendente, não é preciso ser transcendente a tudo.

( Olavo de Carvalho: Ser e Conhecer )

Ora, as possibilidades de manifestação e as impossibilidades de manifestação, juntas, compõem o domínio propriamente dito do Ser, nada sobrando para além dele senão um conceito vazio. Na verdade a expressão Não-Ser só vale como figura de linguagem, para designar os aspectos superiores e mais sublimes do Ser mesmo, seu lado misterioso e eternamente desconhecido, ou imanifestado, portanto qualidades do Ser e não uma outra entidade substancialmente distinta. Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito. -

(Diário Filosófico do Olavo de Carvalho)

Quando se usa a expressão ’ser supremo’, se altera totalmente aquilo que Deus é: origem de todos os seres. Por que existe o ser e não antes o nada? Se se coloca essa pergunta, existe um ser, um nada, e uma causa. Essa causa não é nem um ser, nem o nada. Isso jamais foi contestado. A existência de Deus é inerente à própria existência. O poder que gera a existência não é uma primeira causa que está atrás de uma série de causas. Ele é inerente à existência mesma. A primeira causa já seria um ser, já seria uma existência. Se você enxerga Deus como a possibilidade da existência, não se pode usar a palavra ’ser’ para Deus. Todo religioso tem de saber disso. A pessoa que não é capaz de raciocinar em termos da totalidade da existência, evidentemente não pode entender do que estão falando, aí ela inventa uma coisa chamada ’ser supremo’, um ’serzão’, que não é a definição de Deus. Isso virou um ser que cria outros seres. Mas então, quem criou o primeiro ser? Deus é a possibilidade universal, a onipotência. Se você o define como ’ser’ e tem de provar a existência ou inexistência do mesmo, você está num mato sem cachorro. Seriamente falando, não se discute a existência de Deus. A existência está sempre presente. Conceber a possibilidade hipotética da inexistência de tudo é a condição de perceber o poder da existência, a presença da existência. E perceber essa existência é perceber Deus. Os ateus não acreditam num ’ser supremo’, mas acreditam na existência. Sendo assim, eles não são ateus. A discussão entre ciência e religião é muito primária, é uma vergonha. A onipotência, a presença da experiência está aí, mas você não pode obrigar uma pessoa a olhar para lá, não se pode provar nada.
(Olavo de Carvalho)

Observação: “Não-ser” é uma expressão comumente usada em textos que tratam de metafísica e não deve ser entendida como sinônimo de “nada”. É uma expressão apofática(ver “teologia apofática”). É que é muito mais adequado usar expressões negativas quando se trata do que está fora do nosso campo de cognição. É por isso que as seguintes expressões são essencialmente negativas(pela natureza do conceito de que tratam): infinito, ilimitado, “anattã”(não-eu)… esses conceitos, por sua natureza, são melhor expressados negando-se o conceito oposto(não-finito, não-limitado, não-eu). No caso das expressões citadas, empregou-se um prefixo que nega.

Quero deixar alguns artigos relacionados ao tema Espiritualidade(religião) versus Materialismo(ateísmo) registrados aqui, para mim mesmo[e para quem estiver interessado], a fim de que eu não os perca. São algumas das pérolas do Corpus de artigos do Olavo(aliás, eu o admiro muito como filósofo e não tanto como pensador político, talvez em parte porque eu não tenha interesse em política). Os artigos são de viés espiritualista e de qualidade, o que é difícil de se encontrar.

Mas, antes, vale a pena ler outros quatro artigos que selecionei, os quais, apesar de serem de nível inferior, de certa forma servem como uma espécie de Introdução às tais pérolas. São eles:

1. A Chacota Geral do Mundo[Diário do Comércio, 17 de abril de 2006]

2. Adeus Mundo Ateu[3 de março de 2007]

3. Ateus e Ateus[Jornal do Brasil, 15 e março de 2007]

4. Difamação Pura e Simples[Jornal do Brasil, 19 de junho de 2008]

Bom, agora vamos às pérolas propriamente ditas, artigos de alto nível que vão ao cerne da questão(os 3 últimos são bem recentes, sendo os dois últimos consecutivos):

1. VOLTANDO À CAUSA PRIMEIRA[Folha de S.Paulo, 25 de dezembro de 2004].

O texto acima é um dos melhores artigos que já li. Começa fazendo referência à conversão de Anthony Flew ao “deus aristotélico”, à aceitação do Deísmo. Anthony Flew é famoso como escritor ateu militante, estilo Richard Dawkins. Ele resolveu aceitar a metafísica e o transcendente depois de se aprofundar em filosofia antiga e medieval…ele deixou de ser ateu e agora acredita no plano transcendental e numa espécie de deus impessoal; mas não acredita que haja alguma interferência dEle no nosso mundo ou na nossa vida e não acredita em vida após a morte. Após a referência ao ex-ateu, o texto prossegue tratando do problema da causa primeira, da necessidade da existência eterna das possibilidades universais[as quais obrigatoriamente têm de ter preexistido desde sempre à sua manifestação]. Essa necessidade da existência eterna das possibilidades universais, independentemente de sua manifestação, é  uma necessidade lógica e é irrefutável. Qualquer um que entenda o texto acima chegará à essa conclusão.

2. A CIÊNCIA CONTRA A RAZÃO [Diário do Comércio, 7 de janeiro de 2009].

O artigo acima explica, dentre outras coisas, como a ciência, para ser feita, necessita de usar-se de certos pressupostos auto-evidentes e partir de certas bases fundamentais,  estas sendo verdades absolutas, lógicas, que independem de demonstração. O artigo trata a ciência como um “recorte” da realidade, algo que jamais poderá abarcar a realidade integral.

3. A CONSCIÊNCIA SEM CONSCIÊNCIA[Diário do Comércio, 13 de março de 2009].

O texto parte de uma referência à doença tune deafness(que torna o doente incapaz de atinar para as melodias: nos casos mais graves, apesar de ouvir perfeitamente e de o seu cérebro registrar a harmonia, ele não diferencia o som tocado por uma orquestra do som emitido por carros no tráfego pesado). Depois o texto tenta mostrar que a consciência não pode ser reduzida a um fenômeno físico.

4. O DEUS DOS PALPITEIROS[Diário do Comércio, 18 de março de 2009].

Este último é uma crítica aos ateus militantes que criam um fantoche de deus e depois se sentem vitoriosos ao destruir o fantoche. Que Dawnkins e outros têm o péssimo costume de criticar religiões sem estudá-las não é novidade alguma. Eu mesmo li alguns argumentos de Dawkins e os achei bem fraquinhos; argumentos de quem tem pouca cultura filosófica(pelo menos no que se refere à filosofia clássica – aliás, de filosofia clássica ele provavelmente não tem nenhum conhecimento: nem da técnica, nem dos problemas e soluções, etc.). Até eu que não sou Cristão percebi isso.

E, para complementar e aprofundar este último artigo[O DEUS DOS PALPITEIROS], ouvir os comentários que o Olavo fez à carta de um leitor ATEU, em seu programa de rádio “True Outspeak” do dia 23/03/2009.

- Clique aqui para ouvir o programa do dia 23/03/2009 on-line.

- Clique aqui para baixar o arquivo “.mp3″ do programa do dia 23/03/2009 e ouvir no computador.

Não é preciso ouvir o programa inteiro, apenas dos 9min25seg de programa até os 28min15seg, intervalo em que ele comenta a tal carta. Aproveitem aí esses quase 20 minutos de comentários sobre o tema. Recomendo que baixem o audio, para que vão direto ao momento em que ele começa a ler a carta(aos 9min25seg).

Obs.: Parece que, num dado momento, o Olavo confundiu “Teísmo” com “Deísmo“, mas isso não interessa muito para o que foi comentado.

Introdução

O objetivo deste blog é registrar excertos de livros, links com textos interessantes sobre diversos temas, etc.

Apesar de eu poder escrever um ou outro comentário complementar sobre os textos e excertos postados, este é um blog impessoal.

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